SOCIEDADE

Três em cada quatro brasileiros não têm reserva financeira para enfrentar mais de seis meses de dificuldades

Pesquisa da ANBIMA em parceria com o Datafolha revela que 31% dos brasileiros não possuem dinheiro guardado para emergências. Especialista alerta para os riscos do endividamento e orienta como construir uma reserva financeira, mesmo com renda limitada.

Três em cada quatro brasileiros não possuem reservas financeiras suficientes para manter suas despesas por mais de seis meses em caso de emergência. É o que aponta a 9ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro, pesquisa realizada pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA), em parceria com o Datafolha. Segundo o levantamento, 74% da população não dispõe de recursos suficientes para enfrentar um período prolongado de dificuldades financeiras.

Divulgada em abril de 2026, a pesquisa ouviu 5.832 pessoas com 16 anos ou mais, de todas as regiões do país. Os resultados mostram que 31% dos entrevistados não possuem qualquer reserva de emergência, enquanto outros 20% afirmam que o dinheiro guardado seria suficiente para cobrir, no máximo, um mês de despesas. Os números evidenciam a vulnerabilidade financeira de grande parte da população diante de situações inesperadas, como desemprego, problemas de saúde ou gastos extraordinários.

Para o contador, professor universitário e especialista em educação financeira André Charone, autor do livro A Verdade sobre o Dinheiro, os dados revelam que possuir alguma quantia economizada não significa, necessariamente, estar preparado para enfrentar uma crise.

“Existe uma diferença enorme entre ter algum dinheiro guardado e possuir uma reserva de emergência de verdade. Muitas pessoas até conseguem economizar alguma coisa, mas esse dinheiro não seria suficiente para sustentar a família durante uma situação mais grave, como a perda de um emprego ou uma doença que impeça temporariamente o trabalho”, explica.

A ausência de uma reserva financeira pode comprometer o orçamento familiar e aumentar o risco de endividamento. Diante de uma despesa inesperada, famílias sem recursos disponíveis frequentemente recorrem ao cartão de crédito, cheque especial, empréstimos ou à ajuda de parentes. Dependendo das condições de pagamento e das taxas de juros, uma dificuldade temporária pode resultar em dívidas prolongadas.

Charone exemplifica a situação de uma família que depende de uma renda mensal de R$ 4 mil. Caso essa renda seja interrompida repentinamente, as despesas continuam existindo, mesmo sem recursos disponíveis para quitá-las. Nessas circunstâncias, o crédito pode se tornar a alternativa mais imediata, mas também representar um risco adicional.

O especialista ressalta, entretanto, que a dificuldade para economizar não está necessariamente associada à falta de organização financeira. Segundo ele, milhões de brasileiros precisam comprometer praticamente toda a renda com despesas básicas, o que limita a capacidade de poupança. Por outro lado, há pessoas com rendimentos mais elevados que aumentam os gastos proporcionalmente aos ganhos e acabam permanecendo sem proteção financeira.

Reserva de emergência deve cobrir pelo menos seis meses de despesas

De acordo com André Charone, uma das principais recomendações para garantir maior segurança financeira é constituir uma reserva capaz de cobrir, no mínimo, seis meses das despesas essenciais da família.

O cálculo deve considerar os gastos indispensáveis à manutenção do orçamento doméstico, como moradia, alimentação, água, energia elétrica, medicamentos, transporte e outras obrigações necessárias.

Uma família com despesas essenciais de R$ 3 mil mensais, por exemplo, precisaria acumular R$ 18 mil para garantir seis meses de cobertura financeira. Já para quem necessita de R$ 5 mil por mês, a reserva recomendada seria de R$ 30 mil.

O valor, entretanto, pode variar conforme a realidade de cada pessoa. Trabalhadores autônomos, empresários e profissionais que possuem rendimentos variáveis podem precisar de uma proteção maior, equivalente a até 12 meses de despesas.

“Não existe um valor único que sirva para todo mundo. Uma pessoa com emprego estável e poucas despesas pode precisar de uma reserva diferente daquela exigida por um profissional autônomo, que não sabe exatamente quanto vai receber no próximo mês. O mais importante é que esse dinheiro ofereça tranquilidade e tempo para reorganizar a vida quando alguma coisa sair do planejado”, afirma.

Especialista orienta como começar a economizar mesmo com renda limitada

Para quem ainda não possui dinheiro guardado, a orientação é estabelecer metas menores e aumentar gradualmente os valores economizados. Em vez de tentar acumular imediatamente uma quantia equivalente a seis meses de despesas, o primeiro objetivo pode ser formar uma reserva de R$ 500 ou R$ 1 mil.

Após alcançar essa meta inicial, o próximo passo é reunir recursos suficientes para cobrir um mês de despesas essenciais e ampliar progressivamente a reserva, conforme as possibilidades financeiras.

Outra recomendação é manter o dinheiro destinado às emergências separado dos valores utilizados nas despesas cotidianas. Essa medida ajuda a preservar os recursos e evita que sejam utilizados para finalidades diferentes daquelas para as quais foram reservados.

Em relação às aplicações financeiras, o especialista aponta que determinados Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com liquidez diária e o Tesouro Selic podem ser considerados, desde que sejam observados os riscos, as condições de resgate e as características de cada produto.

Charone também destaca que a reserva de emergência não deve ser confundida com economias destinadas ao consumo ou à realização de objetivos pessoais, como viagens, compra de veículos ou troca de aparelhos eletrônicos.

“Viagem, troca de carro e compra de celular precisam ter planejamentos próprios. A reserva de emergência não é uma poupança para realizar desejos, mas uma proteção para enfrentar necessidades inesperadas. Ela pode não parecer tão interessante quanto outros investimentos, mas sua principal função não é enriquecer ninguém. É impedir que um imprevisto destrua aquilo que a pessoa levou anos para construir”, explica.

Educação financeira é fundamental para prevenir o endividamento

Os resultados da pesquisa também reforçam, segundo André Charone, a importância de ampliar o acesso à educação financeira no Brasil, especialmente por meio de orientações práticas que considerem a realidade econômica das famílias.

Para o especialista, o planejamento financeiro deve começar pela organização do orçamento, pelo controle das dívidas e pela formação de reservas, antes mesmo da busca por investimentos mais complexos.

“Quando falamos de educação financeira, muita gente pensa imediatamente em investimentos, Bolsa de Valores ou em como ficar rico. Mas, antes de tudo isso, precisamos falar sobre orçamento, controle das dívidas e formação de reservas. A verdadeira educação financeira começa quando aprendemos a proteger o dinheiro que já temos”, afirma.

Charone ressalta que a principal finalidade de uma reserva financeira é oferecer segurança diante de situações que não podem ser previstas, evitando que dificuldades momentâneas comprometam a estabilidade econômica construída ao longo dos anos.

“Uma reserva de emergência é como um extintor de incêndio: você espera nunca precisar utilizar, mas, quando surge um problema, fica extremamente agradecido por ter um. O melhor momento para começar a construir essa proteção é antes de a emergência acontecer”, conclui.

Sobre o especialista

André Charone é contador, professor universitário e mestre em Negócios Internacionais pela Must University, na Flórida, nos Estados Unidos. Atua nas áreas de contabilidade, finanças e consultoria empresarial e possui MBA em Gestão Financeira, Controladoria e Auditoria pela Fundação Getulio Vargas (FGV), em São Paulo, além de certificações internacionais pela Universidade de Harvard, em Massachusetts, e pelo Disney Institute, na Flórida.

É sócio do escritório Belconta – Belém Contabilidade e do Portal Neo Ensino, além de autor de livros e centenas de artigos nas áreas contábil, empresarial e educacional.

Seu trabalho mais recente é o livro Empresário Sem Fronteiras: Importação e Exportação para Pequenas Empresas na Prática, que apresenta orientações sobre internacionalização de negócios, estratégias de importação e exportação, precificação para mercados externos, regimes tributários, negociação e prevenção de riscos no comércio internacional.

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