SOCIEDADE

Etanol amplia aplicações no Brasil e atrai interesse de gigantes como Petrobras, Vale e Braskem

O etanol brasileiro começa a ganhar protagonismo em diferentes setores da economia, deixando de ser utilizado exclusivamente como combustível para veículos leves e passando a integrar projetos de descarbonização da aviação, do transporte marítimo, da mineração e da indústria química. O movimento tem despertado o interesse de grandes empresas, como Petrobras, Vale e Braskem, que avaliam novas possibilidades de utilização do biocombustível em suas operações e estratégias de transição energética.

A expansão ocorre em um cenário de crescimento da produção nacional. Segundo estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o Brasil deverá produzir 41,88 bilhões de litros de etanol na safra 2026/27, volume 11,7% superior ao registrado no ciclo anterior. Ao mesmo tempo, o aumento da participação do biocombustível na composição da gasolina e a busca internacional por alternativas menos poluentes ampliam as perspectivas de mercado para o setor.

Desde agosto, a mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina comercializada nos postos brasileiros está em 32%. Para janeiro de 2027, estão previstos testes técnicos para avaliar a possibilidade de elevar esse percentual para 35%. No cenário internacional, a Agência Internacional de Energia (IEA) projeta que a demanda por biocombustíveis no setor de transportes alcance 215 bilhões de litros por ano até 2030. De acordo com a agência, a aviação e a navegação deverão representar mais de 75% do crescimento adicional do consumo nesse período.

Entre as novas possibilidades de utilização, a mineração aparece como um dos setores com potencial para ampliar o consumo. A Vale estuda utilizar etanol em locomotivas e caminhões fora de estrada, como alternativa ao diesel. Já a Petrobras incluiu os biocombustíveis em sua estratégia de transição energética, prevista no plano de negócios para o período de 2026 a 2030.

Outra frente de desenvolvimento envolve a produção de combustível sustentável de aviação, conhecido pela sigla SAF. O etanol pode ser utilizado como matéria-prima em diferentes rotas tecnológicas para a fabricação desse combustível, criando novas possibilidades de comercialização para a produção brasileira. Projeções da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) indicam que a demanda de etanol destinada à produção nacional de SAF e às aplicações no transporte aquaviário e na aviação agropecuária poderá alcançar aproximadamente 3 bilhões de litros em 2036.

O transporte marítimo também representa uma oportunidade para o setor. A estratégia de descarbonização da Organização Marítima Internacional (IMO) estabelece como meta que combustíveis e tecnologias com emissão zero ou quase zero representem pelo menos 5% da energia utilizada pela navegação internacional até 2030. A organização também trabalha com a ambição de alcançar 10% de participação dessas alternativas.

Apesar das perspectivas de crescimento, a consolidação dessas aplicações dependerá de fatores como competitividade econômica, desenvolvimento tecnológico, certificações ambientais e capacidade de produção em larga escala.

A expansão dessas oportunidades estará entre os principais assuntos da Biofuels Academy Brasil (BFA) 2026, marcada para os dias 2 e 3 de dezembro, em São Paulo. O encontro reunirá representantes da Petrobras, Vale, Braskem e das principais biorrefinarias do país para discutir o futuro do setor, as novas aplicações do etanol e os desafios tecnológicos relacionados à ampliação da produção. Promovido pela Lallemand Biofuels & Distilled Spirits (LBDS), o evento também abordará o papel da biotecnologia e da inteligência artificial na melhoria da eficiência industrial.

Biotecnologia e inteligência artificial buscam aumentar produtividade das usinas

Com a perspectiva de crescimento da demanda, outro desafio da indústria está relacionado ao aumento da produtividade das biorrefinarias. Custos industriais, disponibilidade de matérias-primas e condições climáticas influenciam diretamente as margens de produção, levando as empresas a buscar tecnologias capazes de ampliar a conversão de açúcares em etanol e reduzir perdas durante o processo de fermentação.

Entre as alternativas em desenvolvimento estão o aprimoramento de leveduras, a utilização de enzimas, a automatização dos processos industriais e a aplicação de inteligência artificial no monitoramento da fermentação. Essas ferramentas também podem ajudar a identificar antecipadamente falhas operacionais e melhorar o desempenho das unidades produtoras.

Nas usinas que utilizam cana-de-açúcar, os principais desafios envolvem a qualidade da matéria-prima, a estabilidade da fermentação e as decisões sobre a destinação da cana para a produção de açúcar ou etanol. Já nas unidades que utilizam milho, a eficiência da conversão do amido e o aproveitamento dos coprodutos são fatores importantes para a rentabilidade das operações.

Essas questões serão discutidas por representantes de empresas como Raízen, Tereos, bp bioenergy e Inpasa durante a BFA 2026. A programação prevê debates sobre aplicações de inteligência artificial no controle da fermentação, manutenção preditiva e estratégias para elevar a produtividade das biorrefinarias.

Além da fabricação de combustíveis, a indústria também busca ampliar o aproveitamento dos produtos derivados dos processos industriais. Entre eles estão o óleo de milho, o biogás, o biometano e o dióxido de carbono gerado durante a fermentação, que podem representar novas oportunidades de utilização e geração de valor.

Mercado de carbono pode ampliar receitas do setor

Outra possibilidade de expansão econômica está relacionada ao mercado de carbono. Além da comercialização de combustíveis, as empresas do setor podem encontrar novas fontes de receita por meio de mecanismos de precificação das emissões de gases de efeito estufa.

Uma das alternativas avaliadas pela indústria é a captura do dióxido de carbono produzido durante a fermentação do etanol. Após a captura, o gás poderá ser destinado a aplicações industriais e à produção de combustíveis sintéticos, dependendo da viabilidade econômica e tecnológica de cada projeto.

O setor também acompanha a implementação do mercado regulado de carbono no Brasil, a evolução dos Créditos de Descarbonização (CBIOs) e os mecanismos internacionais de redução e compensação de emissões. Entre eles está o Corsia, sistema voltado ao setor de aviação.

Estimativas divulgadas pelo Ministério da Fazenda, com base em estudos do Banco Mundial e da própria pasta, apontam que a implementação do mercado regulado de carbono poderá elevar o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 5,8% até 2040, na comparação com um cenário de referência. A expectativa também é de aproximadamente R$ 57 bilhões em receitas provenientes de leilões de permissões de emissão ao longo desse período.

Apesar do potencial econômico, a monetização das reduções de emissões dependerá da regulamentação do mercado, dos critérios de certificação e dos custos necessários para implementar as tecnologias de captura e redução de carbono.

Etanol também avança na indústria química

Além dos setores de energia e transportes, a indústria petroquímica representa outra frente de expansão para o biocombustível. O etanol vem sendo considerado uma alternativa às matérias-primas de origem fóssil na fabricação de produtos químicos.

A Braskem está entre as empresas que desenvolvem aplicações do combustível na produção de bioquímicos e bioplásticos, ampliando as possibilidades de utilização do etanol como insumo industrial.

A combinação entre aumento da produção nacional, diversificação das aplicações, desenvolvimento tecnológico e ganhos de eficiência poderá ampliar o mercado potencial do etanol brasileiro nos próximos anos. A transformação dessas oportunidades em negócios, entretanto, dependerá da competitividade das rotas tecnológicas e da consolidação da demanda por combustíveis e produtos com menor intensidade de carbono.

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