Medicina do futuro: entre máquinas, algoritmos e a essência do médico-médico

Especialistas alertam que a tecnologia deve ampliar, não substituir, o raciocínio clínico e a relação humana na medicina

Os médicos Marco Orsini, Wladimir Bocca e Acary Bulle de Oliveira analisam os impactos da inteligência artificial, da automação e das novas tecnologias sobre o futuro da medicina e levantam uma questão que ganha cada vez mais relevância: até que ponto as máquinas podem transformar a prática médica sem modificar a própria essência de ser médico?

Para os especialistas, a evolução tecnológica oferece ferramentas capazes de ampliar o acesso ao conhecimento, auxiliar na interpretação de informações e contribuir para diagnósticos e tratamentos, mas também exige atenção para que o profissional não deixe de exercer uma das características fundamentais da medicina: o cuidado humano.

A reflexão parte de uma ideia frequentemente atribuída à antropóloga Margaret Mead, segundo a qual um fêmur quebrado e cicatrizado representaria um dos primeiros sinais de civilização, justamente porque alguém precisou permanecer ao lado daquele que havia se ferido, protegê-lo e ajudá-lo durante o período de recuperação.

A medicina nasceu de um dos gestos mais essenciais da humanidade: cuidar de quem precisava de ajuda. Uma pessoa com uma fratura grave não conseguiria sobreviver sozinha por muito tempo em ambientes hostis, pois teria dificuldades para buscar alimento, água ou proteção.

A recuperação de um ferimento dessa natureza pressupõe a existência de alguém disposto a oferecer assistência. Essa perspectiva sintetiza uma característica que acompanha a medicina desde suas origens: o cuidado com o outro.

Séculos depois, diante do avanço acelerado da inteligência artificial, da automação, dos aplicativos e de sofisticados sistemas tecnológicos, a discussão deixa de ser apenas sobre o que as máquinas conseguem fazer e passa a envolver aquilo que os seres humanos não podem abrir mão de fazer.

A palavra medicina tem origem no latim e está relacionada à ideia de cuidar, tratar e encontrar o melhor caminho para a recuperação. Na Grécia antiga, aquele que promovia a saúde era associado ao termo higeiatros, ligado à saúde e à recuperação da harmonia. Ao longo dos séculos, a profissão passou por profundas transformações, especialmente a partir do final do século XIX e durante o século XX, quando novas descobertas científicas permitiram compreender melhor o funcionamento do corpo humano, as doenças e os mecanismos envolvidos na recuperação dos pacientes. Nesse processo, a relação entre médico e paciente permaneceu como um dos pilares da atividade.

O médico canadense William Osler, uma das referências históricas do ensino da medicina, contribuiu para transformar a formação médica ao aproximar estudantes dos pacientes e do ambiente hospitalar. A prática à beira do leito reforçou a importância de observar, ouvir, examinar e compreender o indivíduo para além de seus sintomas isolados.

A própria origem da palavra clínica remete à ideia de inclinar-se em direção ao paciente, ao leito e àquele que necessita de cuidado. Essa perspectiva ajuda a compreender por que a medicina nunca foi apenas uma atividade técnica. Ela envolve conhecimento científico, raciocínio, experiência, comunicação, tomada de decisão e, sobretudo, uma relação humana.

É justamente essa identidade que Marco Orsini, Wladimir Bocca e Acary Bulle de Oliveira colocam em discussão ao analisar os impactos da tecnologia sobre a medicina contemporânea.

Para os pesquisadores, a humanidade atravessou diferentes momentos tecnológicos, desde as máquinas de escrever até os grandes computadores e, posteriormente, sistemas capazes de processar volumes de informações que ultrapassam a capacidade humana de análise em determinadas situações. O desafio atual, entretanto, não estaria apenas em acompanhar a evolução dessas ferramentas, mas em compreender como utilizá-las sem permitir que elas ocupem o espaço destinado ao pensamento crítico e ao julgamento profissional.

Marco Orsini chama atenção para a necessidade de preservar o raciocínio clínico diante da crescente presença de algoritmos e sistemas automatizados. Na avaliação do pesquisador, a medicina exige que o profissional seja capaz de construir hipóteses, relacionar sinais e sintomas, interpretar informações e tomar decisões a partir de sua própria capacidade cognitiva. Quando essas etapas são substituídas de maneira indiscriminada por respostas produzidas por sistemas tecnológicos, existe o risco de enfraquecimento de habilidades desenvolvidas durante séculos de prática médica. Para ele, a tecnologia deve representar uma expansão das possibilidades humanas, e não uma substituição da capacidade de pensar.

Acary Bulle de Oliveira compartilha dessa preocupação e acrescenta que atribuir aos mecanismos artificiais uma autoridade cada vez maior sobre questões relacionadas à assistência médica, educação, comportamento, moral e segurança pode criar uma dependência perigosa. Para o médico, confiar excessivamente em sistemas automatizados para analisar e solucionar questões complexas pode produzir uma espécie de ilusão de segurança, na qual a capacidade humana de interpretar situações e elaborar respostas próprias passa gradualmente para as máquinas. O problema, nesse cenário, não estaria na existência da tecnologia, mas na possibilidade de o profissional deixar de questionar aquilo que o sistema apresenta como resposta.

Os especialistas não defendem, portanto, uma rejeição ao avanço científico. Pelo contrário, reconhecem que negar a evolução tecnológica seria incompatível com a própria história da medicina. Exames mais precisos, sistemas de apoio à decisão, inteligência artificial, automação e ferramentas digitais podem ampliar a capacidade dos profissionais, acelerar processos e contribuir para diagnósticos e tratamentos. O ponto central está na forma como essas tecnologias são incorporadas à prática. O médico precisa continuar sendo responsável pela interpretação das informações, pela decisão clínica e pela relação estabelecida com o paciente.

Nesse cenário, o futuro da medicina talvez não esteja na escolha entre o médico e a máquina, mas na construção de uma relação equilibrada entre ambos. A tecnologia pode assumir tarefas repetitivas, organizar informações, auxiliar na identificação de padrões e ampliar o acesso ao conhecimento. O profissional, por sua vez, precisa preservar aquilo que não pode ser delegado integralmente a um sistema: a escuta, a empatia, o julgamento, a responsabilidade, a autonomia e a capacidade de compreender o paciente como uma pessoa inteira.

A reflexão proposta por Marco Orsini, Wladimir Bocca e Acary Bulle de Oliveira aponta para uma medicina que não precisa escolher entre inovação e humanidade. O desafio está justamente em fazer com que uma fortaleça a outra. A tecnologia pode ser uma poderosa aliada da ciência e do profissional, desde que permaneça como ferramenta e não se transforme em autoridade absoluta. Se utilizada como apoio, poderá ampliar a capacidade do médico. Se tratada como substituta do pensamento e da relação humana, poderá produzir uma medicina tecnicamente sofisticada, mas distante de sua própria origem.

No fim, a pergunta que permanece é simples e profunda: que tipo de médico a sociedade deseja formar diante de uma tecnologia cada vez mais poderosa? A resposta defendida pelos especialistas passa pela preservação da essência da profissão. Não se trata de formar máquinas de médicos nem médicos de máquinas, mas médicos capazes de utilizar máquinas sem deixar de ser médicos. Enquanto houver um profissional disposto a se inclinar diante de quem precisa de cuidado, ouvir sua história, interpretar seus sinais e assumir a responsabilidade por suas decisões, a medicina continuará preservando aquilo que a tornou uma das expressões mais importantes da civilização: a capacidade humana de cuidar de outro ser humano.

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