Na agroindústria, dosar o absorvedor de oxigênio por embalagem e abrir só o necessário por lote ajuda a conter perdas por oxidação
As etapas de processamento industrial, transformação e distribuição respondem por 21,5% das perdas de alimentos no Brasil, o equivalente a 11,9 milhões de toneladas por ano. O número faz parte das estimativas do Pacto Contra a Fome, divulgadas pela Abrafrutas (Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados) em 29 de setembro, Dia Internacional de Conscientização sobre Perda e Desperdício de Alimentos. No total, o país produz cerca de 161,3 milhões de toneladas de alimentos por ano e perde ou desperdiça 55,4 milhões.
Parte dessa perda, na agroindústria de beneficiamento, vem da oxidação de produtos secos e ricos em gordura depois de embalados. O tema orienta o trabalho da Oxyoff, de Porto Alegre (RS), fundada por Juliano Flores Ramos e apontada como pioneira em fracionar o absorvedor de oxigênio no Brasil, com cerca de 140 mil unidades vendidas no ano.
Oxidação, uma perda que não aparece no balanço
A oxidação reduz a qualidade do alimento sem alterar sua aparência. A Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) registra que o café torrado e moído exposto ao oxigênio e à umidade tem os lipídeos oxidados, perde aroma e desenvolve sabor de ranço, o chamado “café velho”. Na castanha-do-brasil, que tem de 60% a 70% de lipídeos em massa, pesquisadores da Embrapa Instrumentação apontam alta suscetibilidade à rancidez.
Por ocorrer dentro da validade e de forma gradual, a perda tende a ser contabilizada como troca, devolução ou quebra de estoque, e não como falha de conservação.
“O produtor artesanal sabe quanto gastou de castanha, de embalagem e de frete, mas raramente sabe quanto perdeu de lote. Quando o pacote chega com ranço ao cliente, o prejuízo aparece depois, no pedido que deixa de ser repetido”, afirma Juliano Flores Ramos, fundador da Oxyoff.
Controle do oxigênio dentro da embalagem
O absorvedor de oxigênio, sachê em geral à base de pó de ferro, retira o gás que permanece na embalagem fechada. Segundo publicações do Cetea (Centro de Tecnologia de Embalagem), do ITAL (Instituto de Tecnologia de Alimentos), ele pode reduzir o oxigênio a 0,01%, enquanto vácuo e injeção de gás costumam deixar de 2% a 3% de oxigênio residual, o bastante para iniciar a oxidação em alguns alimentos.
A pesquisadora Claire Sarantópoulos, em artigo do Informativo Cetea, aponta que a estabilidade do absorvedor antes do contato com o alimento é decisiva para a eficácia e que a quantidade de substância ativa deve corresponder à massa, ao volume e ao prazo de validade do produto embalado.
Fracionamento na rotina da agroindústria
Na prática, a reação do absorvedor começa no contato com o ar. Quando um pacote grande é aberto no início da semana e usado ao longo de vários lotes, as unidades restantes perdem capacidade antes de chegar à embalagem. A Oxyoff trabalha com pacotes de 50 unidades nas capacidades de 50 cc, 100 cc e 300 cc, o que permite abrir apenas o volume de cada lote e manter o restante lacrado.
“A gente começou a fracionar porque via o produtor abrindo um pacote grande, usando parte num lote e deixando o resto aberto até a semana seguinte. Quando ele passa a abrir só o necessário, cada sachê entra na embalagem com a capacidade completa”, diz Juliano.
O cenário internacional tem proporção semelhante: a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) estima em 13,2% a parcela de alimentos perdida entre a colheita e o varejo, incluindo armazenamento e processamento.
Para a agroindústria, conter a fatia de perdas que ocorre no processamento passa por controlar o oxigênio em cada embalagem, com absorvedor dimensionado ao volume do pacote, aberto apenas na quantidade do lote e acompanhado do registro das devoluções.








