Prevenção ao suicídio exige mais que campanha, apontam especialistas

Psicólogo Rodrigo analisa campanha do Setembro Amarelo.

Psicólogo Rodrigo Toledo defende políticas públicas contínuas de prevenção ao suicídio, com base em dados que mostram limites das campanhas sazonais

Campanhas de conscientização como o Setembro Amarelo têm papel importante na redução do estigma, mas não substituem políticas públicas contínuas de prevenção ao suicídio, segundo o psicólogo Rodrigo Toledo, psicólogo clínico com atuação em São Paulo, pós-graduado em Saúde Mental pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. A avaliação é relevante para gestores públicos e instituições que planejam ações de saúde mental ao longo do ano.

O que os números indicam sobre o problema

Dados da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) e do CFM (Conselho Federal de Medicina) apontam que o Brasil registra cerca de 14 mil suicídios por ano, o equivalente a mais de 38 casos por dia. Boletins epidemiológicos do Ministério da Saúde, com base no SIM (Sistema de Informações sobre Mortalidade) do DATASUS, trazem números consolidados entre 14.000 e 15.500 óbitos anuais, considerando ajustes de subnotificação, o que resulta em uma média de 38 a 42 mortes diárias, um volume que exige resposta contínua, não sazonal.

Por que só a campanha não é suficiente

Estudos que avaliaram os efeitos do Setembro Amarelo não permitem afirmar que a existência da campanha, isoladamente, produza redução das mortes por suicídio. Isso não significa que a campanha seja prejudicial ou que falar sobre o tema tenha efeito negativo, mas mostra que visibilidade, sozinha, não é sinônimo de prevenção, o que tem implicação direta para quem planeja política pública com base apenas em ações de comunicação.

Para Rodrigo Toledo, isso reforça a necessidade de políticas públicas que garantam acesso real a tratamento, assistência social e redes de apoio preparadas ao longo de todo o ano, não apenas em setembro. “Não adianta dizer que precisamos falar sobre suicídio se a campanha não suporta ouvir as diferentes formas pelas quais o sofrimento aparece. Nem todo mundo sofre do mesmo jeito, nem pelas mesmas razões”, afirma o psicólogo.

O papel dos fatores sociais nas políticas de prevenção

A OMS (Organização Mundial da Saúde) descreve o suicídio como um fenômeno multifatorial, que envolve fatores sociais, culturais, biológicos, psicológicos e ambientais, o que exige políticas que vão além da assistência clínica isolada e alcancem áreas como moradia, renda e proteção contra violência.

Relatórios da entidade, como o Preventing Suicide: A Global Imperative, apontam o Brasil como um dos poucos países das Américas com tendência de alta nas taxas de suicídio na última década. Para Rodrigo Toledo, o desafio das próximas campanhas é menos sobre visibilidade pontual e mais sobre construir estrutura de cuidado permanente, capaz de sustentar o que a comunicação de setembro só consegue anunciar.

Isso inclui, segundo Rodrigo Toledo, o fortalecimento de redes de atenção primária, a capacitação de profissionais para identificar sinais de risco e a integração entre saúde, assistência social e segurança pública, áreas que costumam funcionar de forma isolada.

Segundo Rodrigo Toledo, sem essa estrutura permanente, campanhas de setembro tendem a gerar picos de atenção seguidos de meses sem continuidade no atendimento, o que compromete justamente os casos que exigem acompanhamento de mais longo prazo.

Se você ou alguém que você conhece precisa de apoio, o CVV (Centro de Valorização da Vida) atende gratuitamente pelo telefone 188, todos os dias, 24 horas.

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