Psicólogo Rodrigo Toledo explica por que o cansaço passou a ser visto como incompetência e como separar culpa individual de problema estrutural
Em ambientes de alta exigência, parar para descansar passou a gerar culpa, e estar cansado começou a ser interpretado como sinal de incompetência. A inversão é apontada pelo psicólogo clínico Rodrigo Toledo Potechi, pós-graduado em Saúde Mental pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, como um dos sintomas de uma geração que tenta resolver com esforço pessoal um descompasso que também é externo.
Segundo ele, a lógica é conhecida de quem atende em consultório: se o avanço não vem, a resposta automática é produzir mais, dormir menos e cortar qualquer pausa que pareça desperdício de tempo.
A pausa que parece fracasso
A sequência costuma se repetir. Mais horas, mais cursos, mais produtividade, mais networking, menos sono. Para quem cresceu ouvindo que estudo, trabalho e qualificação garantiriam o progresso, desacelerar soa como admitir que falta alguma coisa. No consultório, essa sensação aparece em frases como “eu fiz tudo o que precisava fazer e continuo no mesmo lugar”.
“Não estamos diante apenas de uma geração mais ansiosa ou menos tolerante à frustração. É uma geração que recebeu uma promessa de mobilidade baseada em estudo, trabalho e desempenho, mas chegou à vida adulta num mundo em que posições e oportunidades circulam de outra maneira. Diante desse descompasso, tenta compensar performando cada vez mais. Em algum momento, corpo e mente cobram a conta”, afirma Toledo.
A cobrança se manifesta como ansiedade, insônia, irritabilidade, compulsões, episódios depressivos e burnout. O reflexo chega às estatísticas: em 2025, a Previdência concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária ligados a transtornos mentais e comportamentais, número 15,66% maior que o do ano anterior.
Por que a culpa recai sobre o indivíduo
De acordo com o psicólogo, a culpa se instala porque a pessoa interpreta como falha própria um cenário que mudou ao redor dela. “Uma geração inteira aprendeu que, se o resultado não veio, faltou alguma coisa nela: qualificação, disciplina, produtividade, resiliência. Então, aumenta a dose de tudo. Talvez estejamos tentando corrigir indivíduos para adaptá-los a uma equação que também mudou fora deles”, diz.
Entre essas mudanças está a longevidade. A expectativa de vida ao nascer passou de 45,5 anos, em 1940, para 76,6 anos, em 2024. As carreiras se alongaram, enquanto a sucessão anda devagar: um levantamento mostrou que só 16,1% dos CEOs têm sucessor preparado e que 19,3% não planejam parar de trabalhar. Ao mesmo tempo, as empresas ficaram mais enxutas. A indústria de transformação, que respondia por 26,2% do emprego formal em 1985, caiu para 14,8% em 2024, e 60% dos CEOs brasileiros ouvidos pela PwC em 2026 esperam menos profissionais em início de carreira nos três anos seguintes, por efeito da inteligência artificial.
Há ainda o paradoxo do etarismo. Segundo levantamento da PwC Brasil em parceria com a FGV (Fundação Getulio Vargas), 86% das empresas pesquisadas não tinham plano de carreira para profissionais acima dos 40 anos. Ou seja, o mesmo mercado que prolonga a vida profissional também envelhece cedo os seus trabalhadores.
Separar o que é do sujeito e o que é do mundo
Para Toledo, lidar com a culpa do descanso começa por recolocar cada responsabilidade em seu lugar. Segundo ele, “cuidar da saúde mental também passa por reconhecer isso: distinguir o que pertence ao sujeito, o que pertence ao mundo em que ele vive e o que ainda pode ser construído entre os dois, sem transformar em culpa individual aquilo que também nasce de um problema estrutural, coletivo e social”.
Reconhecer esse limite devolve à pausa o papel de necessidade básica, e não de prêmio a ser conquistado depois de mais uma meta. “No fim, desenvolvimento deveria ampliar possibilidades humanas, não apenas abreviar processos. Se estamos vivendo mais, precisamos encontrar formas de fazer essas vidas caberem num mundo profissional cada vez mais enxuto, automatizado e competitivo. Pessoas de 28, 42, 52 ou 70 anos continuam sendo pessoas antes de serem recursos, cargos ou indicadores de produtividade”, ressalta o psicólogo.








