BRASIL

Líderes subestimam o uso de inteligência artificial pelos funcionários, e o atraso está no topo

Em estudo da McKinsey nos Estados Unidos, executivos estimaram que 4% dos funcionários usavam IA generativa em pelo menos 30% do trabalho diário; os próprios funcionários relataram 13%. Para Guilherme Friol, o dado mostra onde está o atraso

Em estudo da McKinsey nos Estados Unidos, executivos estimaram que 4% dos funcionários usavam IA generativa em pelo menos 30% do trabalho diário; os próprios funcionários relataram 13%. Para Guilherme Friol, o dado mostra onde está o atraso

Perguntados sobre quantos funcionários usavam IA generativa em pelo menos 30% do trabalho diário, executivos de alto escalão nos Estados Unidos estimaram 4%. Os próprios funcionários, porém, relataram um índice de 13%, mais que o triplo. O contraste aparece no estudo Superagency in the workplace, publicado pela McKinsey em janeiro de 2025, e indica que, na adoção da inteligência artificial, quem está atrasado não é a equipe.

A partir do levantamento, a consultoria conclui que as equipes já estão prontas e que a maior barreira para escalar a tecnologia está nas lideranças, que não conduzem a mudança na velocidade necessária. O mesmo trabalho aponta outro descompasso: quase todas as empresas investem em IA, mas apenas 1% delas se considera madura no uso da tecnologia.

O que o número revela

A diferença vai ao encontro da leitura de Guilherme Friol, fundador da Vircos e executivo com 20 anos de carreira em tecnologia. Para ele, quem decide sobre inteligência artificial hoje é a diretoria, mas o repertório de quem está nela não cresceu no mesmo ritmo. Se a chefia não enxerga nem quanto a própria equipe já usa a tecnologia, decidir sobre ela fica mais difícil.

“A inteligência artificial deixou de ser assunto da TI no dia em que começou a influenciar decisões sobre preços, crédito, atendimento e contratos. A partir daí, o executivo que não entende o que ela faz não está delegando, está abdicando”, afirma Friol.

A governança mostra a mesma distância. Na pesquisa State of AI de março de 2025, da McKinsey, que ouviu 1.491 participantes em 101 países, apenas 28% dos respondentes de empresas que usam inteligência artificial disseram que a supervisão da governança da tecnologia cabe ao próprio CEO. É nesse intervalo, entre quem assina a aprovação e quem conhece o funcionamento do projeto, que Friol situa boa parte das compras erradas.

No Brasil, o descompasso se vê no resultado. O Panorama 2026, da Amcham Brasil com a Humanizadas, ouviu 629 executivos de médias e grandes empresas: 61% dos líderes dizem não ter percebido impacto relevante da IA nos resultados, e só 3% afirmam ter transformado a tecnologia em nova receita ou vantagem competitiva.

Decisão pela demonstração

Sem esse repertório, de acordo com Friol, a escolha recai sobre o único elemento que a chefia consegue avaliar numa reunião de compra: a demonstração do fornecedor.

“A demonstração é feita para quem não sabe perguntar. Quando o executivo entende o que está comprando, quem conduz a reunião passa a ser ele, e não o fornecedor”, diz ele.

O que muda quando o executivo entende

A mudança, segundo a descrição de Friol, começa pela pergunta. Sai a dúvida sobre se a ferramenta é boa e entram outras: quanto ela vai custar quando o uso deixar o piloto, o que permanece com a empresa se o contrato for encerrado e quem responde por um erro do sistema.

Em seguida, mudam as cláusulas. Entram no contrato a obrigação de avisar com antecedência qualquer troca de modelo, a garantia de que os dados e as regras inseridos pela empresa voltam para ela na saída e um teto de consumo definido antes da assinatura.

Por fim, muda a escolha do que comprar. Tarefas que se repetem em qualquer empresa podem vir prontas; o que carrega a regra do negócio precisa permanecer sob controle da casa.

Quem precisa correr atrás

Se os líderes subestimam o uso de inteligência artificial pelos funcionários, a conclusão que o estudo permite tirar é que o atraso está acima das equipes.

“Preparar um executivo para a inteligência artificial não é ensinar ferramenta. É devolver a ele a capacidade de decidir sobre o próprio negócio”, afirma Friol.

Para ele, recuperar esse atraso não depende de transformar diretores em técnicos, mas de a diretoria entender o suficiente para decidir, em vez de aprovar a demonstração.

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