BRASIL

Falta de médicos no interior dos EUA abre espaço a profissionais formados fora

Agência do governo americano projeta déficit de 58% fora das metrópoles em 2038, e novas leis estaduais miram justamente essas regiões

Agência do governo americano projeta déficit de 58% fora das metrópoles em 2038, e novas leis estaduais miram justamente essas regiões

O interior dos Estados Unidos deve concentrar a maior parte da falta de médicos nos próximos anos. A HRSA (Health Resources and Services Administration), agência do Departamento de Saúde americano, projeta um déficit de 58% nas áreas não metropolitanas em 2038, contra 5% nas regiões metropolitanas. No total, faltarão 141.160 médicos em equivalentes de tempo integral, e 30 das 35 especialidades analisadas devem registrar escassez.

Esse quadro ajuda a explicar a mudança de postura dos estados em relação a médicos formados no exterior. Para a advogada internacionalista, professora e mentora Érika Calazans, autora do Manual definitivo do green card para médicos, as exigências estaduais e migratórias variam caso a caso e pedem planejamento jurídico desde o início.

Novas leis olham para quem atende longe dos grandes centros

Desde 2023, 24 estados aprovaram leis que permitem a licença plena sem refazer a residência na América do Norte, segundo levantamento de junho de 2026 da FSMB (Federation of State Medical Boards). Em vários deles, a licença provisória está vinculada a áreas rurais ou com carência de atendimento, sempre com supervisão e vínculo a um empregador aprovado pelo conselho. Só em 2026, Geórgia, Kentucky, Louisiana, Nebraska, Virgínia Ocidental e Vermont aprovaram suas regras.

O acesso, porém, tem pré-requisitos. Na Flórida, por exemplo, a lei de 2024 cobra licença ativa no país de origem, prática contínua nos quatro anos anteriores ao pedido, formação similar à residência americana, certificação da ECFMG (Educational Commission for Foreign Medical Graduates), aprovação nas etapas 1 e 2 do USMLE (United States Medical Licensing Examination), exame de inglês médico e oferta de emprego em tempo integral, com permanência de dois anos no mesmo empregador.

A mudança pesa porque, de acordo com o manual de políticas do USCIS (U.S. Citizenship and Immigration Services), cerca de 75% dos estados ainda exigem de quem se formou fora treinamento de pós-graduação adicional ao cobrado dos formados no país.

A mesma lógica no green card

O governo federal adota critério parecido. O Physician National Interest Waiver dispensa a oferta de emprego tradicional para o médico que se compromete a atuar em tempo integral em áreas designadas como carentes pelo HHS (Department of Health and Human Services) ou em unidades de veteranos. A residência permanente só é concedida após cinco anos nessas condições, e o período em visto J-1 não conta.

Licença e visto, porém, seguem caminhos separados: a primeira depende do conselho estadual e o segundo, das autoridades federais. Idaho, Iowa e Wisconsin, por exemplo, exigem status migratório federal para dar ou manter a licença provisória.

Remuneração e cenário

O BLS (Bureau of Labor Statistics) registra mediana salarial anual de US$ 275.930 para médicos e cirurgiões em maio de 2025, com variação por especialidade e estado: vai de US$ 210.040 entre pediatras a US$ 559.030 entre cirurgiões pediátricos. Em Minnesota, a lei fixa para o médico com licença limitada remuneração equivalente à de um residente. No campo migratório, o ano trouxe instabilidade: a suspensão de vistos de imigrante para cidadãos de 75 países, Brasil incluído, vigorou de janeiro até ser anulada pela Justiça em 21 de agosto, segundo reportagem da Band.

Como avaliar a oportunidade

Para Érika, licença e imigração devem ser planejadas como um único projeto. Escolher o estado de destino sem conferir se o pedido de visto é compatível com o tipo de licença oferecido ali é um dos erros que atrasam o processo. A orientação é começar pelas fontes oficiais, como conselhos estaduais, FSMB e USCIS, e buscar análise individual antes de qualquer investimento.

“Não existe roteiro único. A especialidade, o histórico de formação, o estado escolhido e a situação migratória de cada médico definem o que é viável e em quanto tempo”, afirma.

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