BRASIL

Afastamentos por ansiedade quase dobram em dois anos; burnout vai de 1.760 para 6.985 casos

Dados do INSS analisados pela ANAMT e números da Previdência mostram a escalada dos benefícios por transtornos mentais, que somaram 546 mil concessões em 2025

Dados do INSS analisados pela ANAMT e números da Previdência mostram a escalada dos benefícios por transtornos mentais, que somaram 546 mil concessões em 2025

Os afastamentos do trabalho por ansiedade quase dobraram em dois anos no Brasil. Levantamento da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT) com dados do INSS, de janeiro de 2023 a novembro de 2025, mostra que os afastamentos por ansiedade passaram de 81.874, em 2023, para 157.235 em 2025, contados até novembro, e os por síndrome de burnout, de 1.760 para 6.985 no mesmo intervalo. Segundo a entidade, o custo dos benefícios por adoecimento mental ultrapassou R$ 954 milhões só no último ano.

Os números oficiais da Previdência confirmam a tendência. Em 2025, a Previdência Social concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária motivados por transtornos mentais e comportamentais, alta de 15,66% sobre 2024, quando foram 472.328. Transtornos ansiosos lideram a lista, com 166.489 concessões, seguidos por episódios depressivos, com 126.608. Empresas de saúde digital, como a VoxCare, oferecem teleconsulta médica e apoio psicológico como benefício corporativo.

Quem paga

Pela Lei 8.213/1991, os primeiros 15 dias de afastamento por doença são pagos pela empresa, com salário integral. O benefício previdenciário, o antigo auxílio-doença, começa a partir do 16º dia, depois da análise do INSS. Antes e depois desse marco, o empregador ainda arca com a substituição do profissional, as horas extras da equipe que cobre a ausência, a queda de produtividade e, em parte dos casos, o custo de desligar e repor quem não volta.

“O afastamento longo raramente começa longo. Ele costuma aparecer antes em atestados curtos, faltas repetidas e numa queda de rendimento que ninguém conecta. Quando a pessoa tem a quem recorrer no primeiro sinal, ela não precisa esperar a situação apertar para pedir ajuda”, diz Sonia Cardoso, CEO da VoxCare.

A norma

A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), feita pela Portaria MTE nº 1.419/2024, obrigou as empresas a incluir os fatores de risco psicossociais, como sobrecarga, pressão por metas, assédio e conflitos nas relações de trabalho, no gerenciamento de riscos ocupacionais. Depois de um ano de caráter educativo, a fiscalização com possibilidade de autuação começou em 26 de maio de 2026. As empresas precisam mostrar que identificaram e avaliaram esses riscos e que medidas adotaram para controlá-los.

“A NR-1 tirou a saúde mental da área de benefícios e colocou na de gestão de risco. Não basta oferecer psicólogo: a empresa precisa mostrar que identificou o risco e o que fez com ele, sem nunca ter acesso ao diagnóstico de ninguém”, afirma a executiva.

O dinheiro das empresas

Um painel da Saúde Digital Brasil com o Datalab da Serasa Experian contou 7,98 milhões de atendimentos de telessaúde entre 2020 e 2025. Benefícios corporativos financiaram 31% desse volume, atrás apenas dos planos de saúde, com 42%.

O limite

A Lei Geral de Proteção de Dados (Lei 13.709/2018) classifica a informação de saúde como dado pessoal sensível. O canal de cuidado não pode virar uma forma de a empresa saber quem está doente. Os relatórios de uso chegam à empresa apenas de forma agregada, sem acesso a diagnósticos individuais.

Com a fiscalização da NR-1 em curso e os benefícios em alta, a saúde mental passou a ocupar a matriz de risco das empresas, com um custo que aparece na folha de pagamento antes de chegar ao INSS.

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