Com produtividade do trabalho em alta de 0,4% em 2025, fábricas recorrem à inteligência artificial para ampliar a capacidade das equipes
A produtividade agregada do trabalho no Brasil cresceu apenas 0,4% em 2025, segundo o Observatório da Produtividade Regis Bonelli, da FGV IBRE. O avanço foi sustentado principalmente pela agropecuária, enquanto indústria e serviços tiveram desempenho mais fraco. O contraste ajuda a explicar um movimento que começa a se repetir nas fábricas: a escassez de profissionais especializados está acelerando a adoção de tecnologia. A leitura é compartilhada por Camila Sarantopoulos, CEO da TECC Indústria Inteligente, que acompanha a chegada da inteligência artificial à programação de máquinas.
O precedente do agronegócio
Estudo apresentado pela CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) e publicado pelo Valor Econômico mostrou que, entre 2012 e 2025, a área agrícola do país aumentou 43,2%, enquanto o número de trabalhadores por 100 hectares recuou 38,5%. Segundo o levantamento, a mecanização não apenas reduziu a necessidade de mão de obra: em muitos casos, a própria dificuldade de encontrar trabalhadores teria acelerado o investimento em máquinas.
Nas fábricas, faltam programadores
Na indústria, o gargalo está em quem transforma o projeto de engenharia em instruções para tornos e centros de usinagem CNC (Controle Numérico Computadorizado). Pesquisa da CNI (Confederação Nacional da Indústria) com 1.002 empresários indica que 62% apontam a dificuldade de contratar mão de obra qualificada como um dos principais componentes do Custo Brasil. Ao mesmo tempo, a ABIMAQ (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos) informa que o setor fechou 2025 com receita líquida próxima de R$ 299 bilhões, alta de 7,3%, e importações recordes de US$ 32,2 bilhões.
Sistemas de CAM associados à inteligência artificial já automatizam parte da criação de estratégias de usinagem e reconhecem características geométricas das peças. “O maior ganho não está necessariamente em substituir o conhecimento do programador, mas em multiplicar sua capacidade. Existe um conhecimento industrial acumulado durante anos dentro dessas pessoas. Quando a tecnologia assume parte do trabalho repetitivo, esse profissional pode usar sua experiência onde ela realmente gera valor”, afirma Sarantopoulos.
Inovação concentrada no processo
Pesquisa da CNI divulgada em 2026 mostrou que 61% das indústrias realizaram atividades de inovação nos três anos anteriores. Entre elas, 69% concentraram esforços na melhoria dos processos produtivos, e o aumento da produtividade foi o principal resultado, citado por 38% das companhias.
Governança acompanha a adoção
A proteção de projetos, modelos CAD (desenho assistido por computador) e parâmetros de processo é uma das condições para o avanço. “Um dos receios que mais ouvimos das indústrias é em relação à confidencialidade dos projetos quando entram ferramentas de inteligência artificial. A dúvida é legítima: se uma empresa compartilha uma peça, um processo ou uma estratégia de usinagem com uma IA, esse conhecimento poderia, de alguma forma, beneficiar concorrentes? Esse tipo de preocupação é natural sempre que uma nova tecnologia começa a ocupar espaço dentro das empresas”, comenta a executiva. “Foi assim com o e-mail, com a nuvem e com tantas outras tecnologias que, em um primeiro momento, despertaram desconfiança. Com o tempo, à medida que segurança, governança e regras de uso foram amadurecendo, essas ferramentas passaram a fazer parte da rotina empresarial.”
“Na indústria, acredito que acontecerá algo semelhante com a inteligência artificial. A preocupação com proteção de dados precisa existir e precisa ser tratada com seriedade, mas o potencial de ganho em produtividade, velocidade de programação, redução de tarefas repetitivas e melhor aproveitamento dos profissionais é grande demais para ser ignorado. A discussão tende a deixar de ser ‘se a indústria vai usar IA’ e passar a ser ‘como usar IA com segurança, governança e vantagem competitiva'”, afirma Camila Sarantopoulos.
Equipamento novo não basta
A produtividade industrial cresce pouco, porque máquina moderna amplia a capacidade potencial, mas convertê-la em mais peças, setup menor e menos desperdício depende dos processos e das pessoas ao redor do equipamento. Com profissionais escassos, a indústria tende a seguir o caminho já trilhado pelo agronegócio e usar a tecnologia para multiplicar o rendimento das equipes que já tem.



