Problemas no transporte, na adaptação e nos cuidados sanitários de animais recém-adquiridos podem comprometer o ganho de peso, elevar os custos de produção e reduzir a rentabilidade da atividade, alerta médico-veterinário Viktor Abel.
Uma negociação aparentemente vantajosa na compra de bovinos pode resultar em prejuízos financeiros antes mesmo do início da engorda. Falhas no transporte, na recepção e na adaptação dos animais à propriedade podem comprometer o desempenho do rebanho, aumentar a ocorrência de doenças e reduzir o retorno econômico da produção. Em determinadas situações, perdas que não são percebidas imediatamente podem representar milhares de reais a menos no resultado final da atividade pecuária.
O alerta é do médico-veterinário e pecuarista Viktor Abel, mestrando em Produção Animal e Forragicultura pela Universidade Estadual de Goiás (UEG). Com mais de dez anos de experiência na bovinocultura de corte, o profissional atua nas áreas de sanidade, confinamento e gestão sanitária de rebanhos.
Segundo o especialista, parte dos prejuízos está relacionada à condução inadequada dos animais nas primeiras horas e nos primeiros dias após a chegada à propriedade. O desgaste provocado pelo transporte, associado às mudanças de ambiente e à redução do consumo alimentar, pode interferir diretamente na recuperação e no desenvolvimento dos bovinos.
“Muitas vezes, o produtor negocia bem a compra do gado, mas perde parte desse resultado por falhas no manejo logo na chegada. Um animal que passa por estresse excessivo pode reduzir o consumo alimentar, adoecer e deixar de ganhar peso. São perdas que nem sempre aparecem imediatamente, mas fazem diferença no resultado financeiro da fazenda”, explica Viktor.
Manejo inadequado na chegada pode aumentar o risco de doenças
Entre os erros mais frequentes apontados pelo médico-veterinário está a realização de diversos procedimentos logo após o desembarque, sem levar em consideração as condições físicas dos animais e o desgaste provocado pela viagem.
Pesagem, apartação, vacinação e vermifugação estão entre as atividades que exigem planejamento. Quando realizadas de maneira inadequada ou concentradas em um momento de maior vulnerabilidade, podem intensificar o estresse dos bovinos recém-transportados.
Além do deslocamento, os animais enfrentam mudanças de ambiente, possíveis quadros de desidratação e redução do consumo de alimentos. A combinação desses fatores pode aumentar a suscetibilidade a doenças, especialmente as respiratórias, comprometendo a recuperação do lote e o desempenho esperado durante a engorda.
Nesse cenário, a recepção dos bovinos deixa de ser apenas uma etapa operacional e passa a ter importância estratégica para a produção. A forma como os animais são conduzidos após a chegada pode influenciar tanto as condições sanitárias do rebanho quanto os resultados econômicos da propriedade.
Redução de 100 gramas no ganho diário pode representar perda de R$ 11,7 mil
Para demonstrar o impacto financeiro de pequenas perdas de desempenho, Viktor Abel apresenta uma simulação envolvendo 100 bovinos em engorda.
Nesse cenário, uma redução de apenas 100 gramas no ganho de peso diário de cada animal, durante um período de 100 dias, resulta em mil quilos de peso vivo que deixam de ser produzidos pelo lote.
O cálculo considera um rendimento de carcaça de 51% e o valor de R$ 345 por arroba. Com esses parâmetros, a perda corresponde a aproximadamente R$ 11,7 mil em receita bruta potencial não realizada.
O impacto aumenta proporcionalmente quando o número de animais é maior. Em um confinamento com mil bovinos, a mesma redução de desempenho representaria mais de R$ 117 mil em receita bruta potencial não realizada, considerando os mesmos parâmetros da simulação.
Os valores apresentados são ilustrativos e dependem das premissas utilizadas no cálculo. A cotação de R$ 345 por arroba adotada no exemplo não representa necessariamente o preço atual de mercado.
A simulação evidencia como uma diferença aparentemente pequena no ganho de peso individual pode adquirir uma dimensão econômica expressiva quando se considera o número de animais e a duração do ciclo produtivo.
Problemas sanitários também elevam os custos da produção
As consequências do manejo inadequado não se limitam ao peso que deixa de ser produzido. A ocorrência de doenças pode aumentar as despesas com medicamentos, mão de obra e tratamentos adicionais, além de prolongar o período necessário para que os bovinos atinjam o peso de abate.
Esses custos afetam diretamente o planejamento financeiro da propriedade. Quando os animais apresentam problemas sanitários ou desempenho abaixo do esperado, o produtor pode precisar destinar mais recursos à recuperação do rebanho, ao mesmo tempo que enfrenta uma produção inferior à projetada.
Por esse motivo, o especialista defende que a prevenção seja considerada parte do planejamento econômico da atividade, e não apenas uma medida adotada quando surgem problemas.
A avaliação das condições dos bovinos na chegada, o fornecimento de água de qualidade e a oferta de alimentação adequada estão entre os cuidados recomendados para favorecer a recuperação dos animais.
Período de recuperação deve considerar as condições do rebanho
Outro ponto destacado por Viktor é a necessidade de respeitar o tempo de recuperação dos bovinos após o transporte. Como referência, um período de descanso de aproximadamente três dias pode ser considerado antes da realização de procedimentos que provoquem estresse adicional.
Esse intervalo, entretanto, não deve ser aplicado de maneira rígida a todos os lotes. De acordo com o especialista, o período necessário depende das condições em que os animais foram transportados e do estado sanitário apresentado na chegada à propriedade.
A observação do rebanho é fundamental para identificar alterações que exijam atenção. Animais com sinais de enfermidade precisam receber atendimento imediato, sem que a recomendação de descanso seja utilizada como justificativa para adiar os cuidados necessários.
A conduta deve considerar, portanto, tanto a recuperação dos bovinos após a viagem quanto a identificação de possíveis problemas de saúde. O objetivo é evitar procedimentos desnecessários em animais debilitados sem deixar de atender prontamente aqueles que precisam de assistência veterinária.
Histórico sanitário orienta vacinação e vermifugação
O planejamento dos cuidados sanitários também deve começar antes da chegada dos animais. Conhecer o histórico sanitário do lote é uma das medidas apontadas por Viktor para orientar a definição dos protocolos de vacinação e vermifugação.
A avaliação prévia permite que as decisões sejam tomadas com base nas informações disponíveis sobre os bovinos, evitando aplicações desnecessárias e favorecendo a organização do manejo sanitário.
Ao comparar a prevenção a uma proteção patrimonial, o médico-veterinário ressalta a dimensão econômica dos cuidados com a saúde do rebanho.
“O protocolo sanitário é como se fosse um seguro que ele faz em cima de um patrimônio de milhões”, compara.
A recomendação reforça a importância de integrar as medidas sanitárias à gestão da propriedade, considerando o valor dos animais, os riscos envolvidos na produção e os possíveis custos decorrentes de falhas na prevenção.
Acompanhamento de indicadores ajuda a identificar perdas
Para Viktor Abel, a profissionalização da pecuária exige acompanhamento sistemático dos resultados. Entre os indicadores destacados pelo especialista estão a mortalidade, a ocorrência de doenças, o ganho médio diário de peso e o custo da arroba produzida.
Esses dados permitem acompanhar o desempenho dos animais e avaliar os resultados da produção ao longo do ciclo. Quando associados ao planejamento sanitário, também ajudam o produtor a identificar problemas que podem comprometer a eficiência e a rentabilidade da atividade.
A preparação das instalações, a capacitação das equipes e a definição antecipada das medidas preventivas são outras etapas consideradas importantes pelo médico-veterinário. Segundo ele, o planejamento deve ocorrer antes mesmo da chegada dos bovinos à propriedade, de modo que a estrutura e os procedimentos necessários estejam organizados para receber o lote.
A atenção a essas etapas contribui para reduzir a exposição dos animais a situações de estresse evitáveis e para melhorar o controle das condições sanitárias durante o período de adaptação.
Prevenção é parte da rentabilidade da pecuária
Na avaliação do especialista, o resultado econômico da bovinocultura de corte não depende exclusivamente das condições de compra e venda dos animais. A preservação da saúde e do potencial produtivo do rebanho ao longo de todo o ciclo também influencia o retorno financeiro da atividade.
Falhas na recepção, na adaptação e no manejo sanitário podem comprometer o ganho de peso, aumentar os gastos operacionais e prolongar o tempo necessário para a terminação dos bovinos. Em sistemas com grande número de animais, diferenças individuais de desempenho podem se transformar em perdas expressivas para a propriedade.
Por isso, o planejamento sanitário, a observação dos animais, a preparação das instalações e o acompanhamento dos indicadores produtivos são apontados como medidas importantes para reduzir riscos e evitar despesas que poderiam ser prevenidas.
Para Viktor Abel, o cuidado com os bovinos desde a chegada à fazenda é uma etapa decisiva para preservar o investimento realizado pelo produtor e manter a eficiência da produção pecuária.








