Calendário curto e contratos de poucos meses explicam o período em que o atleta fica sem vínculo. Sócios da Empregol, plataforma criada por jogadores, contam como é atravessar essa fase.
No futebol, entressafra é o período entre o fim de um contrato e o início do próximo. Para os grandes clubes, ela se confunde com as férias e a pré-temporada. Para a maior parte dos jogadores brasileiros, é um intervalo sem salário, sem estrutura e sem data para acabar, e costuma começar bem antes de a temporada terminar.
É nesse intervalo que atua a Empregol (empregol.co), plataforma fundada por jogadores e ex-jogadores que chega ao mercado em outubro para conectar atletas sem contrato ativo a clubes e agentes.
Por que a temporada acaba cedo
A explicação está no calendário. Clubes fora das divisões nacionais têm poucas competições por ano, e o contrato do jogador costuma durar o tempo do torneio. Quando o time é eliminado, o vínculo termina junto. A Série D do Campeonato Brasileiro de 2026, a maior da história, com 96 clubes, terminou em 13 de setembro, mas para a maioria dos elencos a temporada acabou semanas ou meses antes.
Para quem disputa só o estadual, o ano é ainda mais curto. O Campeonato Carioca de 2026, por exemplo, durou menos de dois meses, de 11 de janeiro a 8 de março.
Contratos curtos e salários baixos
O Relatório de Transferências 2026 da Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (ANRESF), feito com a CBF Academy, mede o fenômeno. Os contratos domésticos assinados na primeira janela do ano por clubes da Série D duraram em média nove meses, com remuneração de R$ 44 mil por ano. Nos clubes sem divisão nacional, a média caiu para 5,6 meses e R$ 35 mil anuais, cerca de R$ 2,9 mil por mês, abaixo do rendimento médio do trabalhador brasileiro, de cerca de R$ 3,7 mil, segundo a PNAD Contínua do IBGE. O documento fala em “contratos precários, típicos de jogadores em busca de recolocação e de clubes com calendário de competições mais limitado”.
O que o jogador perde nesse período
Sem clube, o atleta fica sem estrutura de treino, sem comissão técnica e departamento médico e sem salário, e ainda precisa se manter pronto para uma proposta que pode surgir a qualquer momento. Léo Vieira, sócio da Empregol em atividade no Portimonense, de Portugal, diz que a entressafra começa na cabeça antes de começar no calendário: “Quando o contrato vai chegando ao fim, a cabeça já está no que vem depois. Você não sabe se vai continuar jogando nem se vai ter salário daqui a alguns meses. Por isso estar em campo, somando minutos, faz tanta diferença”.
Matteo Zatorre, que jogou no Santos e também é sócio, lembra do outro lado: “A gente sentiu na pele o que é estar sem contrato, sem clube, sem saber para onde ligar. Sentimos o silêncio depois que o telefone para de tocar”, conta. “O período sem clube cobra da cabeça tanto quanto do corpo”, completa.
Uma plataforma para atravessar a fase
A Empregol tem ainda como sócios Hygor Ribeiro, CEO, que jogou profissionalmente por clubes como Desportivo Brasil, América de Natal e Noroeste, e Caio Vieira, da área comercial. Na plataforma, o atleta cria um perfil com posição, dados físicos, estatísticas e vídeos, verificado por checagem de identidade e de documentos, e recebe contato de clubes e agentes verificados pelo chat.
No plano premium, há sessões com profissionais parceiros de saúde mental, jurídico, financeiro e preparação física a preço corporativo, com acesso mantido após a assinatura com um novo clube. Os planos vão de R$ 24,90 a R$ 79,90 por mês, com período gratuito no lançamento.
Entre o fim da Série D e o início dos estaduais de 2027, a entressafra atinge milhares de jogadores ao mesmo tempo. “Nenhum atleta deveria ficar invisível só porque está entre um contrato e outro”, afirma Léo.








