Profissionais acompanham a jornada oncológica, orientam pacientes, agilizam processos e fazem a ponte entre médicos e equipes de saúde. Em um único dia, podem receber de cinco a sete novos pacientes.
Receber o diagnóstico de câncer é o início de uma jornada que pode envolver exames, avaliação da extensão da doença, definição do tratamento, autorizações, consultas e sessões de quimioterapia. Em meio a tantas etapas, o paciente precisa lidar não apenas com as exigências do tratamento, mas também com o impacto emocional da notícia. Para ajudar a tornar esse percurso mais organizado e acessível, as enfermeiras navegadoras desempenham um papel importante no acompanhamento de pessoas com câncer.
Essas profissionais atuam desde os primeiros momentos após o diagnóstico, orientando os pacientes, identificando dificuldades e acompanhando os procedimentos necessários para o início do tratamento. Também funcionam como um elo entre o paciente, os médicos e os diferentes setores envolvidos na assistência, ajudando a esclarecer dúvidas e a solucionar pendências que possam comprometer o andamento do cuidado.
Em Goiás, esse trabalho integra a jornada do paciente no Hemolabor — Centro Integrado de Oncologia, Hematologia e Diagnóstico. Segundo Carolina Silva Souza, enfermeira que atua na navegação oncológica da instituição, o acompanhamento começa praticamente assim que a doença é identificada.
“O nosso objetivo aqui, enquanto enfermeira navegadora, é acompanhar a jornada do paciente. Desde o momento que ele recebe um diagnóstico. A partir desse primeiro contato, passamos a acompanhar uma série de etapas. É preciso entender o protocolo indicado, avaliar a necessidade de cateter, verificar exames, orientar sobre possíveis efeitos do tratamento e acompanhar processos de autorização”, explica Carolina.
Após a comunicação do diagnóstico pelo médico, a enfermeira navegadora é acionada para acolher o paciente e apresentar as etapas iniciais do percurso. O trabalho envolve explicar como funciona o atendimento, identificar necessidades individuais e acompanhar exames, protocolos terapêuticos, autorizações e agendamentos.
A partir desse primeiro contato, o paciente passa a contar com uma profissional de referência dentro da instituição, a quem pode recorrer diante de dúvidas ou dificuldades ao longo do tratamento.
O acompanhamento também inclui orientações sobre alternativas que podem ajudar a reduzir os efeitos físicos de determinados procedimentos. Entre os exemplos está a touca de resfriamento capilar, que pode ser utilizada por pacientes interessados em diminuir a queda de cabelo associada a alguns tratamentos.
“A gente tenta agilizar o processo do paciente para que ele consiga receber o tratamento o quanto antes e ter o mínimo de impacto na sua saúde e bem-estar”, afirma Carolina.
Até sete novos pacientes por dia
De acordo com o Hemolabor, a equipe recebe, em média, de cinco a sete novos pacientes por dia. Muitos chegam à instituição com biópsias e outros exames realizados, mas ainda precisam passar por etapas adicionais, como o estadiamento, procedimento que permite avaliar a extensão da doença e contribui para o planejamento terapêutico.
Com a chegada de novos pacientes, a carteira de acompanhamento se mantém em constante mudança. Enquanto algumas pessoas ainda estão na fase de investigação e definição do tratamento, outras já iniciaram a terapia e continuam precisando de orientações, esclarecimentos e apoio para lidar com sintomas ou resolver dificuldades durante o percurso.
Carolina destaca que a atuação exige organização e capacidade de transformar informações complexas em orientações compreensíveis para quem acaba de receber uma notícia difícil.
“Eu costumo dizer para eles que eu sou a lanterna no túnel escuro que eles entraram agora. É muita informação e ninguém espera ter um câncer em tal momento da vida, que é um diagnóstico muito difícil. Então a gente está aqui justamente para ser esse facilitador para ele”, afirma.
A enfermeira navegadora não substitui o médico nem assume a responsabilidade pela definição do tratamento. Sua função é facilitar a integração entre as diferentes etapas da assistência, acompanhar o fluxo de atendimento e melhorar a comunicação entre o paciente e a equipe responsável pelo cuidado.
Para Bárbara Cristina Rodrigues, que também atua na navegação oncológica do Hemolabor, a presença de uma profissional de referência ajuda a reduzir as dificuldades enfrentadas por quem precisa compreender informações técnicas e tomar decisões em um momento de vulnerabilidade.
“A gente acaba sendo esse direcionamento para ele, essa bússola. Na prática, isso pode significar acompanhar uma pendência, fazer contato com outro setor, levar uma dúvida ao médico ou orientar o paciente sobre o próximo passo”, resume.
Acesso ao tratamento e redução de barreiras
A navegação de pacientes também passou a contar com respaldo normativo no Brasil. Em janeiro de 2024, o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) publicou a Resolução nº 735, que regulamenta a atuação do enfermeiro navegador e estabelece que a atividade de navegação, no âmbito da equipe de enfermagem, é privativa do enfermeiro.
Em 2025, a navegação de pessoas com câncer também passou a integrar formalmente as políticas públicas de atenção oncológica por meio de uma portaria do Ministério da Saúde. A medida define a navegação como a busca ativa e o acompanhamento individual dos processos envolvidos no diagnóstico e no tratamento.
A prática busca reduzir obstáculos que dificultam o acesso à assistência. Um estudo publicado em 2025 na Revista Brasileira de Cancerologia, do Instituto Nacional de Câncer (INCA), analisou a experiência de 27 enfermeiros navegadores no país e identificou que a atividade ainda está em evolução, com diferentes formas de organização entre os serviços de saúde.
No atendimento cotidiano, as barreiras podem ser ainda maiores para pessoas em situação de vulnerabilidade. Bárbara relata que acompanha pacientes analfabetos, pessoas com dificuldades de fala, pessoas com deficiência e pacientes que não contam com alguém para acompanhá-los durante o tratamento.
Nessas situações, o trabalho pode exigir apoio direto para que o paciente consiga circular pela instituição e acessar os serviços de que precisa.
“A navegação é justamente a acessibilidade desse paciente ao tratamento. Em determinadas situações, o trabalho pode ser tão concreto quanto acompanhar fisicamente alguém dentro da instituição. O nosso trabalho é pegar na mão e sair andando com o paciente”, afirma Bárbara.
Agilidade para iniciar o tratamento
O tempo entre a confirmação do diagnóstico e o início do tratamento é outro ponto central da navegação oncológica. No Sistema Único de Saúde (SUS), a legislação estabelece o prazo de até 60 dias para o início do primeiro tratamento de pacientes com neoplasia maligna, contado a partir da confirmação do diagnóstico, conforme as condições previstas na legislação.
Na rotina das enfermeiras navegadoras, a busca por agilidade envolve identificar pendências, acompanhar solicitações e manter contato com os setores responsáveis para evitar atrasos desnecessários.
“A nossa ideia é ter o paciente do início da consulta aqui e iniciar o tratamento o quanto antes, porque é um tempo que eles contam de vida ali. Aqui a gente depende de uma rede interna. A gente nunca trabalha só, então tem uma equipe junto aí com a gente para ajudar no processo”, explica Carolina.
Além de acompanhar o fluxo de atendimento, as profissionais precisam conhecer os protocolos de quimioterapia e compreender os procedimentos relacionados a convênios, solicitações e autorizações. A atuação depende, portanto, da articulação com diferentes profissionais e setores para que cada etapa seja encaminhada adequadamente.
Essa dinâmica também é descrita no estudo publicado pelo INCA em 2025. A pesquisa relaciona a atuação do enfermeiro navegador à gestão do fluxo de atendimento e ao direcionamento da assistência, com acompanhamento do paciente desde o diagnóstico até o encerramento do percurso de cuidado.
Vínculo que vai além do tratamento
Ao longo da jornada oncológica, a relação entre as enfermeiras navegadoras e os pacientes também pode adquirir uma dimensão emocional. A convivência durante consultas, exames e tratamentos favorece a construção de vínculos de confiança, fazendo com que as profissionais sejam procuradas não apenas para esclarecer questões clínicas e administrativas, mas também como referências em momentos de insegurança.
Segundo Bárbara, essa proximidade pode tornar a conclusão do tratamento um momento de sentimentos contraditórios. Depois de acompanhar o paciente por diferentes etapas, a equipe também vivencia a mudança na relação construída durante o período de assistência.
“Por conta da convivência, criamos uma relação íntima com o paciente. E, quando chega o momento da alta, essa separação também pode ser difícil. Depois de acompanhar toda a jornada, o vínculo que foi construído não termina simplesmente quando o tratamento acaba”, conta.
Entre o diagnóstico e o fim do tratamento, a navegação oncológica busca tornar o caminho mais organizado, acessível e compreensível. Ao reunir orientação, acompanhamento e articulação entre os serviços de saúde, as enfermeiras navegadoras ajudam pacientes a enfrentar as dificuldades de uma jornada marcada por procedimentos complexos, decisões importantes e a necessidade de iniciar o cuidado com agilidade.








