O cantor que fez Neymar dançar, conquistou o Brasil com um dos sucessos do sertanejo universitário e teve sua voz na trilha sonora da novela “Avenida Brasil” agora apresenta uma proposta diferente. Quatorze anos depois do fenômeno “Eu Quero Tchu, Eu Quero Tcha”, Marcelo Martins quer trocar parte das histórias de sofrimento por canções sobre amor, felicidade e reencontros. Em sua nova fase artística, o cantor e compositor aposta no Surfnejo e na música “Reconectar” para defender uma ideia: em um mundo onde as pessoas se comunicam o tempo inteiro, talvez esteja faltando justamente a capacidade de se conectar de verdade.
A proposta nasce em um cenário marcado por conflitos, intolerância e relações cada vez mais mediadas pelas telas. Sem abandonar o repertório que o tornou conhecido nacionalmente, Marcelo procura ampliar sua identidade musical e alcançar diferentes gerações de ouvintes.
Ao Panorama Goiás, o artista explica que a transformação não representa uma ruptura com o passado, mas uma maneira de utilizar a música para despertar outros sentimentos.
“Durante muito tempo, as pessoas cantaram e dançaram comigo. Isso é uma alegria enorme e faz parte da minha história. Mas hoje eu também quero que elas ouçam uma música minha e sintam vontade de abraçar alguém, pedir perdão, procurar uma pessoa de quem sentem saudade. Se ‘Reconectar’ despertar isso em alguém, a música já cumpriu um papel importante”, afirma Marcelo Martins.
O mundo nunca esteve tão conectado, mas será que as pessoas estão mais próximas?
A tecnologia transformou a maneira como os indivíduos conversam, trabalham e mantêm relações pessoais. Entretanto, a facilidade de comunicação não eliminou os conflitos nem garantiu vínculos afetivos mais profundos. É essa contradição que Marcelo Martins procura explorar musicalmente.
A canção apresenta uma mensagem que ultrapassa os relacionamentos amorosos. O conceito também envolve famílias que deixaram de conversar, amizades interrompidas, casais que perderam a intimidade e pessoas que sentem falta de relações mais próximas.
Para Marcelo, o amor não deve aparecer nas músicas apenas quando termina ou provoca sofrimento. Ele também pode ser celebrado quando representa acolhimento, reconciliação e felicidade. Reconectar significa restabelecer um vínculo interrompido, recuperar uma relação ou construir uma nova maneira de se aproximar de alguém.
Do Tchu Tcha Tcha ao Surfnejo: a transformação de Marcelo Martins
Em 2012, a dupla João Lucas & Marcelo conquistou projeção nacional com “Eu Quero Tchu, Eu Quero Tcha”. A canção ganhou repercussão depois que Neymar incorporou sua coreografia às comemorações de gols e ajudou a popularizar o refrão entre torcedores e fãs de música sertaneja.
O sucesso ultrapassou os palcos, chegou aos estádios de futebol, às festas populares e à televisão. A música integrou a trilha sonora de “Avenida Brasil”, novela da TV Globo. A trajetória de Marcelo também inclui outros sucessos da dupla, entre eles “Louca Louquinha”, “Joga o Copo Pro Alto” e “Agora É pra Valer”.
Agora, o cantor investe na consolidação de uma identidade própria, que combina a experiência dos grandes palcos à liberdade de experimentar novas sonoridades. O projeto recebeu o nome de Surfnejo, uma combinação de referências do sertanejo e do pop, com uma proposta associada à leveza, à liberdade e aos sentimentos positivos.
O artista não pretende abandonar o modão, a música romântica tradicional ou os sucessos que marcaram sua história. A intenção é acrescentar possibilidades a um repertório construído ao longo dos anos.
“A vida também tem amores que dão certo”, diz Marcelo Martins
O sertanejo brasileiro possui uma tradição de músicas sobre desilusões, separações, traições e sofrimento amoroso. Essas histórias continuam presentes no gênero e representam parte da identificação do público com seus artistas. Marcelo, entretanto, questiona por que os sentimentos positivos não podem ocupar o mesmo espaço.
“Não quero fazer uma música que negue o sofrimento. Todo mundo sofre, todo mundo já perdeu alguém ou passou por uma decepção. Mas a vida também tem reencontros, amores que dão certo, amizades que duram e dias felizes. Por que não cantar essas histórias? É isso que eu procuro com o Surfnejo”, declara ao Panorama Goiás.
A proposta não representa uma crítica aos artistas que trabalham com a sofrência. Para Marcelo, existe espaço para diferentes maneiras de retratar a experiência humana: relacionamentos que resistem ao tempo, pessoas que encontram motivos para recomeçar e sentimentos que permanecem depois das dificuldades.
Uma música sobre amor em tempos de intolerância
O projeto também abre espaço para uma reflexão sobre o papel da música em uma sociedade marcada por disputas e conflitos. A expansão das redes sociais transformou parte das discussões cotidianas em confrontos públicos. Dentro das famílias, diferenças de opinião também podem produzir afastamentos e rompimentos.
Marcelo Martins acredita que a música pode ajudar a recuperar uma linguagem que ultrapasse essas divisões. Amor, amizade, saudade e reconciliação são experiências que atravessam gerações e não dependem de posicionamento ideológico.
A mensagem de “Reconectar” encontra espaço nessa dimensão das relações humanas. Ao defender a necessidade de recuperar vínculos, Marcelo também apresenta uma perspectiva sobre a função da arte: além de entreter, uma composição pode despertar lembranças, provocar reflexões e incentivar atitudes.
Marcelo Martins aposta em uma nova geração de ouvintes
Quando “Eu Quero Tchu, Eu Quero Tcha” ganhou repercussão, em 2012, programas de televisão, rádios e apresentações públicas exerciam papel importante na popularização de uma música. Em 2026, as plataformas digitais e as redes sociais participam diretamente da circulação de novos trabalhos.
Para Marcelo Martins, esse cenário representa a oportunidade de apresentar sua carreira solo a pessoas que talvez conheçam sua voz, mas ainda não tenham acompanhado seus projetos recentes. O Surfnejo faz parte dessa estratégia de renovação musical, enquanto o artista preserva a ligação com o sertanejo tradicional.
Reconectar também significa reencontrar a própria história
Para parte do público, a voz de Marcelo remete às festas de 2012, às coreografias de Neymar e à época em que o sertanejo universitário ampliou sua presença na cultura popular brasileira. Para outros, poderá representar canções sobre relacionamentos, esperança e recomeços.
As pessoas que dançavam ao som da dupla João Lucas & Marcelo em 2012 também mudaram. Muitas constituíram famílias, tiveram filhos, enfrentaram separações, reconstruíram relacionamentos e passaram a enxergar o mundo de outra maneira. Nesse sentido, a nova fase também estabelece uma conexão com a trajetória do público.
Quatorze anos depois de conquistar o Brasil com uma música que virou fenômeno popular, Marcelo apresenta outro convite. Desta vez, não é preciso aprender uma coreografia: talvez seja suficiente procurar alguém de quem se sente saudade ou recuperar uma conversa interrompida.
O homem que fez o Brasil dançar agora quer fazer o país se reconectar.
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