Uma pesquisa conduzida por pesquisadores brasileiros trouxe novos elementos para o debate sobre o combate à desinformação política. O estudo revela que conteúdos falsos tendem a ser assimilados pelo cérebro como verdade quando reforçam crenças e convicções já existentes, independentemente da idade, do gênero, do nível de escolaridade ou da orientação político-ideológica do indivíduo.
O levantamento foi realizado com 96 voluntários de diferentes perfis, que assistiram a quatro vídeos previamente classificados como desinformação por agências especializadas em checagem de fatos. Entre os materiais analisados estavam conteúdos produzidos por parlamentares e vídeos manipulados com inteligência artificial (deepfakes). Durante o experimento, os participantes tiveram a atividade cerebral monitorada por eletroencefalograma (EEG), além de acompanhamento por tecnologia de rastreamento ocular (eye tracking).
A pesquisa foi conduzida por José Jance Marques, pesquisador associado ao Mestrado em Comunicação Digital do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP) e ao Doutorado em Direito, Estado e Constituição da Universidade de Brasília (UnB).
Segundo o estudo, o cérebro segue um processo composto por diferentes etapas ao receber uma informação: primeiro ocorre a atenção, seguida pelo processamento cognitivo, depois pela resposta emocional e, por fim, pela aderência, momento em que o conteúdo passa a integrar a memória de longo prazo.
O pesquisador explica que essa última fase é determinante para entender a força da desinformação. Quando uma informação falsa está alinhada às crenças do receptor, ela tende a ser armazenada pelo cérebro da mesma forma que uma informação verdadeira.
Outro ponto observado foi o papel das emoções nesse processo. Sentimentos como raiva, medo e estresse influenciam diretamente a forma como a informação é processada. A pesquisa indica que a raiva favorece a construção de justificativas para defender conteúdos alinhados às próprias convicções, enquanto o medo reduz a capacidade de análise crítica, aumentando a probabilidade de compartilhamento, especialmente no caso de deepfakes.
Os pesquisadores também identificaram que pessoas com níveis mais elevados de narcisismo apresentaram maior tendência a incorporar conteúdos desinformativos quando estes contribuem para a imagem que desejam projetar socialmente.
Os resultados colocam em discussão a eficácia das estratégias tradicionais de combate à desinformação baseadas apenas na correção posterior dos fatos. De acordo com José Jance Marques, quando uma informação falsa já foi incorporada à memória, simplesmente apresentar a versão correta nem sempre é suficiente para modificar essa percepção.
Como alternativa, o pesquisador defende investimentos em educação midiática, ações preventivas de conscientização — conhecidas como prebunking — e uma comunicação pública mais acessível, utilizando linguagem simples, exemplos do cotidiano e formatos mais dinâmicos para facilitar a compreensão da população.
O estudo reforça que o enfrentamento à desinformação exige mais do que a simples checagem de fatos. Compreender como o cérebro processa informações e como fatores emocionais influenciam esse mecanismo pode contribuir para o desenvolvimento de estratégias mais eficazes na promoção da informação de qualidade e do pensamento crítico na sociedade.
