Evento realizado em São Paulo pela clickCompliance e pelo Kronoos discutiu como lacunas entre áreas deixam riscos sem resposta
Um conflito de interesses declarado por um colaborador pode ficar registrado e, mesmo assim, nunca chegar à equipe que negocia com fornecedores. A situação foi usada por Marcelo Erthal, CEO da clickCompliance, para resumir o eixo da primeira edição do Compliance 360°: conectando tecnologia, integridade e pessoas, realizado em 21 de outubro, em São Paulo.
Promovido pela clickCompliance e pelo Kronoos, o encontro reuniu mais de 150 profissionais da área em um dia inteiro de programação, das 9h às 18h.
“Boa parte das empresas já tem canal de denúncias, política de conflito de interesses e processo de due diligence. A proposta do Compliance 360° foi olhar para o que acontece entre essas frentes. Um fornecedor citado em uma denúncia, um conflito declarado que nunca chega ao time de compras: é nesses intervalos que o risco cresce sem que ninguém perceba”, afirma Marcelo Erthal, CEO da clickCompliance.
Do registro à decisão de compra
Conflito de interesses foi um dos quatro painéis do evento, ao lado de gestão de terceiros, inteligência artificial aplicada a canais de denúncia e sanções internacionais e listas restritivas na relação com parceiros comerciais. Os temas foram escolhidos para levantar reflexões sobre a falta de integração entre as frentes dos programas de compliance.
A relação com fornecedores aparece como ponto sensível. Pesquisa do Gartner divulgada em 2025 mostrou que mais de 82% dos líderes de compliance enfrentaram consequências ligadas a riscos de terceiros nos 12 meses anteriores, e a gestão de terceiros foi apontada como a principal prioridade do grupo.
A regulação brasileira também olha para esse elo. O Decreto 11.129/2022, que regulamenta a Lei Anticorrupção (12.846/2013), inclui entre os parâmetros de avaliação de um programa de integridade as diligências para contratação e supervisão de terceiros, os canais de denúncia e o monitoramento contínuo.
Quando a informação está em outra área
Muitas vezes, o alerta já existe dentro da empresa. O relatório Occupational Fraud 2026, da ACFE (Association of Certified Fraud Examiners), com 2.402 casos em 143 países, indica que 43% das fraudes foram detectadas a partir de um relato. O estudo estima perdas de cerca de 5% da receita anual e aponta que um esquema típico dura 12 meses antes de ser descoberto.
Para encurtar esse caminho, o evento discutiu o cruzamento de dados de terceiros com listas restritivas e de sanções e a triagem de relatos com inteligência artificial. A proposta é automatizar processos operacionais e acompanhar obrigações regulatórias, liberando a equipe para análise e decisão. Levantamento do Gartner com 161 executivos de auditoria interna, de maio de 2026, mostra que 93% dessas áreas já usam IA em algum nível, e 60% ainda não têm estratégia formal.
“Quando uma fabricante de aeronaves, uma fundação de pesquisa e um escritório de advocacia comparam como enfrentam os mesmos problemas, fica claro que a integração é um desafio de todo o mercado. A tecnologia ajuda quando os dados de cada área passam a conversar. Sem isso, cada frente continua enxergando só a sua parte do risco”, diz Erthal.
Quem participou
Os painéis reuniram executivos de Embraer, Mercedes-Benz, Norsk Hydro, Howden Brasil, Fundação Butantan, TozziniFreire, Elopar, Clariens Educação, MetLife, Natura Pay, Unimed Campinas, Grupo Biolab, OEC e Qualicorp. A realização foi da clickCompliance e do Kronoos, empresas de tecnologia para compliance reconhecidas como Top LegalTech pelo ranking 100 Open Startups, com o objetivo de fomentar debates, troca de experiências e conexões na comunidade de compliance.
Para quem decide compras e contratações, o recado do painel é que a declaração de conflito de interesses só cumpre seu papel quando chega a quem fecha o negócio com o fornecedor.








