Com “Habite-me”, artista integra o Ano Cultural Brasil–China; programação reúne festivais, oficinas e masterclasses em Pequim e Xangai
O espetáculo “Habite-me”, criado e interpretado pela atriz-marionetista Carolina Garcia Marques, chega à China como parte da programação do Ano Cultural Brasil-China. A artista representa o teatro de animação brasileiro em uma agenda de apresentações, oficinas e intercâmbios. A circulação conta com apoio da Fundação Nacional de Artes (Funarte), vinculada ao Ministério da Cultura, por meio do programa Brasil Conexões Internacionais.
De 6 a 12 de outubro, Carolina participa do Beijing International Puppet Festival, em Pequim, com o solo e uma oficina. Na sequência, de 14 a 17 de outubro, integra o China Shanghai International Arts Festival (CSIAF), em Xangai.
A programação inclui ainda masterclasses de Contemporary Puppetry com Tito Lorefice, na Central Academy of Drama, em Pequim: no dia 27, para estudantes do terceiro ano, e no dia 28, para turmas do primeiro ano. “Levar ‘Habite-me’ para a China é perceber como essa pesquisa se transforma no encontro com outras pessoas e contextos. Representar o Brasil neste momento de aproximação entre os dois países tem um significado especial e desperta uma vontade de aprender. Espero que a gente possa compartilhar o que faz, conhecer o que os artistas de lá estão criando e ampliar essas relações”, afirma Carolina.
Entre os dias 7 e 18 de novembro, o espetáculo Habite-me integra a programação do Daliangshan International Theater Festival, em Xichang, na China. As apresentações serão realizadas no Teatro nº 19 (NO.19 Theater), no dia 8 de novembro, às 14h30 e às 19h30.
Um corpo que se transforma em cena
Em “Habite-me”, a artista se desdobra em sete personagens por meio de máscaras, bonecos e dança. O espetáculo explora diferentes maneiras de ocupar o próprio corpo e de se relacionar com o mundo. Na linguagem do teatro de formas animadas, bonecos, máscaras e objetos ganham vida pela atuação; nesta montagem, o corpo da intérprete também se torna espaço onde a narrativa acontece. “Habitar, para mim, começa na forma como eu ocupo este corpo e me relaciono com aquilo que está ao meu redor. Depois vêm a roupa, o outro, o contexto social, o planeta e o universo. O espetáculo percorre essas diferentes camadas de pertencimento”, explica Carolina.
Com direção e dramaturgia de Paulo Balardim, bonecos e máscaras da canadense Emilie Racine e trilha sonora original do compositor belga Tuur Florizoone, a montagem constrói imagens sobre amor, memória, envelhecimento, vida e morte. A cenografia é de Elcio Rossini, os figurinos são de Cris Lisot e a produção executiva é da Líria Cultural.
A criação começou em 2017, durante uma residência de pesquisa em Montreal, realizada por meio de uma parceria entre o Festival Casteliers, o Conselho das Artes de Montreal, o bairro de Outremont e o Espaço de Residência Artística Vale Arvoredo. O processo prosseguiu no Brasil e reuniu profissionais de diferentes países. Estreado em 2019, “Habite-me” recebeu, em 2021, o Prêmio APTR de melhor espetáculo em formato virtual. Em 2023, integrou a mostra oficial do Festival Mundial de Teatros de Marionetes de Charleville-Mézières, na França.
Da bicicleta aos palcos internacionais
Carolina começou sua trajetória na periferia de Porto Alegre, onde assistiu à primeira peça aos 13 anos, pela escola pública. Sem acesso regular à arte ou recursos para buscar formação, ganhou uma bicicleta um ano depois e passou a chegar a projetos culturais, oficinas e grupos de teatro. Na escola descobriu o interesse pela criação coletiva. “Percebi que o teatro reunia muitos elementos que me interessavam”, recorda.
Aos 15 anos, ganhou um curso de teatro dos familiares e depois frequentou o Ói Nóis Aqui Traveiz, grupo porto-alegrense. Desde 1994, concilia atuação, produção e formação. Trabalhou em espetáculos nas escolas, integrou a primeira formação do Povo da Rua e produziu festivais, como o Porto Alegre em Cena. “A produção foi uma forma de sobreviver dentro do teatro, e não fora dele. A economia da cultura exige que a gente compreenda várias dimensões do trabalho”, afirma.
Essa experiência se soma à licenciatura em Artes Cênicas e à especialização em Economia da Cultura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, além da formação no Método Feldenkrais, abordagem de educação somática voltada à percepção do corpo e do movimento.
O encontro com os bonecos
O teatro de bonecos ganhou espaço em sua trajetória no encontro com o diretor e pesquisador Paulo Balardim. Durante o lançamento de um livro sobre o tema, Carolina manipulou um boneco pela primeira vez em uma improvisação, venceu o concurso realizado no encontro e foi convidada para um curso de seis meses.
A pesquisa sobre animação, movimento e matéria a levou à Caixa do Elefante Teatro de Bonecos, onde participou da criação de “A Tecelã”, inspirada em Marina Colasanti. Após dois anos de pesquisa, a montagem circulou por seis anos, passando por festivais internacionais. Pelo trabalho, recebeu o Prêmio Braskem de melhor atriz no Porto Alegre em Cena, em 2011.
A formação em educação somática ampliou essa investigação. “No trabalho com bonecos, lidamos o tempo todo com gravidade, peso, calor, equilíbrio e movimento. A educação somática trouxe mais percepção, menos esforço e outra qualidade de presença para essa pesquisa”, explica.
Desde 2020, desenvolve “Corpo Percurso”, aproximando o teatro de luvas do corpo humano. Também articula criação, formação e relações com o território como cofundadora do Espaço de Residência Artística Vale Arvoredo, no Rio Grande do Sul, e na curadoria cultural da Fazenda Tulha, entre Minas Gerais e São Paulo. “Tenho dificuldade de me definir porque sinto que estou sempre em processo. Uma experiência continua na outra. O que espero é poder contribuir, dentro do meu tamanho, para ampliar nossa relação com o ambiente e com as pessoas, trazendo mais arte e mais camadas de conexão”, afirma.



