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Antes de renegociar dívidas, empresário precisa saber quanto deve e a quem

Levantamento completo do passivo é condição para qualquer decisão sobre crédito, renegociação ou reestruturação, segundo advogado

Levantamento completo do passivo é condição para qualquer decisão sobre crédito, renegociação ou reestruturação, segundo advogado

Renegociar com o banco, buscar uma nova linha de crédito, alongar prazos com fornecedores. Diante de uma empresa com o caixa pressionado, essas costumam ser as primeiras medidas consideradas pela gestão. Há, porém, uma etapa anterior que muitas vezes fica de lado: saber exatamente quanto a empresa deve, para quem e em quais condições.

A orientação é de Agenor de Lima Bento, advogado e administrador judicial, com atuação em direito empresarial, recuperação judicial e falência.

“Antes de decidir entre buscar crédito, renegociar dívidas, reestruturar a operação ou até mesmo encerrar a atividade, é fundamental conhecer o tamanho e a natureza do passivo”, afirma.

Obrigações dispersas

Segundo o especialista, a falta de uma visão consolidada do passivo é um dos sinais de deterioração financeira. Em empresas pressionadas, convivem empréstimos bancários, fornecedores em atraso, tributos pendentes, parcelamentos, ações judiciais e outras obrigações espalhadas por diferentes áreas, sem que a gestão tenha o quadro completo.

Os números da Serasa Experian ilustram essa fragmentação. Em julho de 2026, cada empresa inadimplente no país acumulava, em média, 7,3 contas negativadas, com dívida média de R$ 25.983,88. Além disso, 75,7% das pendências estavam fora de bancos, cartões e financeiras, distribuídas entre prestadores de serviços, cooperativas, concessionárias de serviços públicos e operadoras de telefonia.

Na prática, uma renegociação bancária, por mais favorável que seja, pode resolver apenas uma fração do problema.

A dispersão também pesa na relação com fornecedores. Redução de prazo, exigência de pagamento antecipado e corte no limite de crédito são indícios de que o mercado percebe aumento de risco, o que estreita ainda mais a margem de manobra da empresa.

O que o levantamento revela

Sem o mapeamento, o empresário perde a capacidade de tomar decisões estratégicas. Com ele, consegue identificar se as dívidas estão crescendo junto com o faturamento, se novas obrigações estão sendo contraídas apenas para quitar outras já vencidas e se tributos e salários passaram a ser usados como fonte de financiamento da operação.

Esse último ponto exige cuidado específico. De acordo com Bento, determinadas obrigações têm consequências jurídicas próprias e não devem ser tratadas como mais uma conta a pagar.

Crédito mais caro

A clareza sobre o passivo ganha importância em um ambiente de financiamento restrito. Segundo a economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack, a perspectiva de juros altos por mais tempo encarece o crédito e reduz a capacidade das empresas de rolar suas dívidas. O Brasil chegou a 9,2 milhões de CNPJs negativados em julho de 2026, com R$ 238,6 bilhões em dívidas em atraso.

Da informação à decisão

Com o passivo mapeado, as alternativas ficam mais claras: renegociar contratos, reduzir custos, buscar capital, reorganizar dívidas ou alterar a estrutura operacional. Em casos mais graves, o levantamento também serve de base para avaliar mecanismos jurídicos de reestruturação, como a recuperação judicial. O mapeamento ajuda ainda a distinguir uma falta temporária de caixa de um problema estrutural, distinção que define quais caminhos jurídicos e empresariais fazem sentido.

“O pior momento para procurar ajuda é quando a empresa já não consegue pagar absolutamente ninguém. Quanto antes o empresário identificar que existe um problema estrutural, maior será o número de alternativas disponíveis”, diz o advogado.

Para o tomador de decisão, a recomendação é inverter a ordem habitual: primeiro conhecer o tamanho e a natureza das dívidas, depois sentar à mesa de negociação.

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