A pergunta que atravessa o campo governista desde a noite de domingo (4) é inevitável: onde Lula errou?
Antes de procurar uma única explicação, é preciso olhar para os números. Com 99,99% das urnas apuradas, Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 56.104.268 votos, ou 47,03% dos válidos. Luiz Inácio Lula da Silva recebeu 53.876.617 votos, equivalentes a 45,16%. A diferença foi de pouco mais de 2,2 milhões de votos. O segundo turno ocorre em 25 de outubro.
Quatro anos antes, o cenário era inverso. Lula havia encerrado o primeiro turno de 2022 com 57.259.504 votos e 48,43% dos válidos, enquanto Jair Bolsonaro registrou 51.072.345, ou 43,20%.
A comparação revela a primeira dimensão do problema: Lula não apenas deixou de crescer durante quatro anos de governo. Perdeu aproximadamente 3,38 milhões de votos entre um primeiro turno e outro. Em percentual, recuou 3,27 pontos.
Não se trata de colapso eleitoral. Um candidato que recebe quase 54 milhões de votos permanece competitivo. Mas o resultado indica desgaste e, principalmente, dificuldade para ampliar a própria coalizão eleitoral.
Esse talvez seja o ponto central para compreender o que aconteceu.
Lula perdeu capacidade de expansão
Campanhas presidenciais precisam cumprir duas funções simultâneas: preservar a base e avançar sobre os eleitores que não pertencem a ela.
Lula preserva uma estrutura eleitoral robusta. O Nordeste continua sendo seu principal território político. O problema aparece quando se observa o restante do mapa.
Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno na frente em 14 estados e no Distrito Federal. Lula venceu em 12. O candidato do PL predominou no Sudeste, Sul, Centro-Oeste e Norte, enquanto Lula manteve sua maior força no Nordeste.
Mais revelador ainda é o movimento municipal.
Levantamento realizado a partir dos resultados eleitorais mostra que Flávio Bolsonaro conquistou 714 municípios nos quais Lula havia obtido maioria em 2022. No sentido contrário, Lula não conseguiu virar nenhum município que havia dado maioria a Jair Bolsonaro naquele primeiro turno.
Esse dado merece atenção.
A eleição não mostra apenas transferência de votos entre dois candidatos. Mostra deslocamento territorial.
E Goiás está no centro desse fenômeno.
Goiás ajuda a explicar o problema
Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno em Goiás com cerca de 53,6% dos votos válidos. Lula ficou próximo de 31,1%. Ronaldo Caiado apareceu em terceiro, com 12,33%.
O resultado não surpreende quando considerado o histórico recente do estado. Em 2022, Jair Bolsonaro recebeu 58,71% dos votos válidos dos goianos no segundo turno, contra 41,29% de Lula.
Mas existe um dado de 2026 particularmente interessante: Goiás registrou a maior proporção de municípios que mudaram de lado entre os dois pleitos. Segundo levantamento sobre a votação municipal, 28% das cidades goianas que haviam dado vantagem a Lula em 2022 passaram para o campo de Flávio Bolsonaro.
Para um presidente que disputa a reeleição, isso representa um problema político maior do que simplesmente perder um estado historicamente difícil para o PT.
Significa perder terreno onde anteriormente existia alguma capacidade de penetração.
O Centro-Oeste permanece sendo uma região complicada para Lula. O resultado indica que quatro anos no Palácio do Planalto não foram suficientes para alterar essa relação.
E isso leva ao segundo erro.
Governo não é sinônimo de percepção de governo
Quem administra costuma olhar para indicadores. Quem vota olha para a própria vida.
Essa diferença explica boa parte dos fracassos de comunicação política.
Governos apresentam crescimento econômico, emprego, renda, programas sociais, investimentos, obras e indicadores fiscais. Tudo isso é necessário para uma avaliação objetiva de uma administração.
Mas eleição não ocorre em uma planilha.
O eleitor compara a narrativa do governo com a experiência cotidiana.
Quanto custa o supermercado?
Quanto custa financiar uma casa ou um carro?
Como está o endividamento da família?
Existe sensação de segurança?
O emprego encontrado corresponde à renda esperada?
A percepção sobre o futuro melhorou?
Uma gestão pode apresentar dados positivos e, ainda assim, não receber crédito eleitoral proporcional por eles.
Quando isso acontece, existem duas possibilidades: a população não percebe a melhora ou percebe, mas não atribui essa melhora ao governo.
Nos dois casos, há um problema de comunicação política.
E talvez Lula tenha confiado demais na ideia de que as entregas do governo se converteriam naturalmente em votos.
Não se converteram.
O antipetismo continua vivo
Existe ainda um erro de interpretação recorrente dentro do campo progressista: tratar todo voto em um Bolsonaro como produto exclusivo do bolsonarismo.
Não é.
Existe bolsonarismo. Existe eleitor ideologicamente identificado com a direita. Existe eleitor conservador. Mas existe também uma parcela que vota menos por entusiasmo com Flávio Bolsonaro e mais por rejeição a Lula e ao PT.
O antipetismo continua sendo uma das forças estruturantes da política brasileira.
Ignorar essa diferença produz erro estratégico.
Uma campanha eleitoral não precisa apenas convencer o eleitor das qualidades de seu candidato. Precisa compreender por que milhões de pessoas estão dispostas a votar no adversário para impedir sua vitória.
Em Goiás, isso fica especialmente evidente.
Lula enfrenta um ambiente político no qual o PT possui limitações históricas, enquanto direita e centro-direita mantêm elevada capacidade eleitoral. Não basta falar com quem já se identifica com o presidente. É necessário construir uma ponte com o eleitor que não é petista, mas também não necessariamente se considera bolsonarista.
É nesse espaço que eleições nacionais são decididas.
Flávio não é Jair
Há outra mudança que a campanha de Lula precisa assimilar rapidamente.
Flávio Bolsonaro carrega o sobrenome, o eleitorado e parte importante da estrutura política criada pelo pai. Mas isso não significa que seja eleitoralmente idêntico a Jair Bolsonaro.
Uma campanha preparada para disputar novamente contra Jair pode cometer um erro ao reproduzir automaticamente as estratégias utilizadas quatro anos atrás.
Todo adversário precisa ser analisado pelo que é no presente.
Essa regra vale para política, mercado e comunicação.
Quando o concorrente muda de comportamento, manter a mesma estratégia deixa de representar consistência e passa a significar atraso de leitura.
Os números sugerem que Flávio conseguiu conservar grande parte do eleitorado bolsonarista e, ao mesmo tempo, reduzir algumas resistências que existiam contra seu pai.
O resultado é objetivo: Jair Bolsonaro terminou o primeiro turno de 2022 com 51 milhões de votos. Flávio chega a 56,1 milhões em 2026.
Enquanto Lula perde aproximadamente 3,4 milhões de votos, o campo Bolsonaro adiciona mais de 5 milhões em relação ao primeiro turno anterior.
É uma mudança eleitoral que não pode ser explicada somente pela fidelidade de uma bolha.
Redes sociais também podem enganar campanhas
Existe ainda uma armadilha contemporânea: confundir engajamento com convencimento.
Uma campanha pode ocupar as redes sociais, produzir vídeos com milhões de visualizações, dominar debates entre seguidores e gerar intensa mobilização digital.
Nada disso significa, necessariamente, conquista de votos novos.
O algoritmo recompensa afinidade. A eleição exige expansão.
Nas plataformas digitais, as pessoas tendem a interagir com conteúdos próximos daquilo em que já acreditam. Isso produz uma sensação de força que pode ser verdadeira dentro de determinado grupo e insuficiente fora dele.
A urna quebra essa ilusão.
Quase 54 milhões de pessoas votaram em Lula. É uma base gigantesca.
A questão para o segundo turno não é conversar mais com esses 54 milhões.
É encontrar parte dos aproximadamente 71 milhões de votos válidos que foram para outros candidatos.
E agora?
O segundo turno começa com uma dificuldade para Lula que não existia da mesma maneira em 2022.
Naquela eleição, ele entrou na segunda etapa na liderança. Agora entra atrás.
Há ainda votos disponíveis. Os candidatos que ficaram fora da disputa somaram milhões de eleitores, e o comportamento desse grupo será decisivo.
Mas Lula precisa primeiro responder à pergunta deste artigo.
Onde errou?
Na minha leitura, o erro não está em um episódio específico.
Está na soma de fatores: dificuldade de transformar governo em percepção, comunicação excessivamente voltada à própria base, subestimação do antipetismo, perda de capacidade territorial e leitura insuficiente das mudanças ocorridas no campo adversário.
O desafio de Lula até 25 de outubro não é convencer o petista de que seu governo merece continuar.
Esse eleitor, em grande medida, já está convencido.
O desafio é conversar com quem não é petista.
É entender Minas Gerais.
É olhar para Goiás.
É observar o interior.
É estudar as periferias metropolitanas.
É compreender o eleitor de centro que rejeita a polarização, mas acaba escolhendo um dos polos quando entra na cabine de votação.
E, sobretudo, compreender que política não é apenas aquilo que um governo entrega.
Política também é aquilo que a sociedade percebe.
Entre uma coisa e outra existe a comunicação.
E, em uma eleição decidida por poucos pontos percentuais, essa distância pode definir quem entra e quem sai do Palácio do Planalto.








