PANORAMA CULTURAL

Nós podemos ser as próximas Aias? O que a ficção de Gilead revela sobre o mundo atual

Restrições aos direitos femininos, violência digital e controle da informação mostram como situações retratadas em O Conto da Aia encontram paralelos na realidade

Antes de perderem o direito de trabalhar, estudar ou decidir sobre os próprios corpos, as mulheres de Gilead foram submetidas a uma narrativa que apresentava a submissão como virtude e a perda de liberdade como proteção. Esse é um dos principais elementos de O Conto da Aia, obra de Margaret Atwood que inspirou a série The Handmaid’s Tale. Quarenta e um anos após a publicação do livro, acontecimentos em diferentes países mostram que parte dos mecanismos de controle retratados na ficção possui correspondência na realidade.

No Afeganistão, por exemplo, 2,2 milhões de adolescentes permanecem impedidas de frequentar o ensino secundário, segundo dados divulgados pela UNESCO e pelo UNICEF em janeiro de 2026. Desde que o Talibã retomou o poder, em 2021, as restrições também atingiram o trabalho e a participação feminina na vida pública. Mais de 80% das mulheres que atuavam na mídia afegã perderam seus empregos desde então, conforme levantamento da UNESCO.

Quando a violência ultrapassa a ficção

A violência contra mulheres também aparece nos indicadores mundiais. Relatório publicado pela ONU Mulheres e pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), em novembro de 2025, apontou que aproximadamente 50 mil mulheres e meninas foram assassinadas por parceiros íntimos ou familiares em 2024. Isso representa uma média de 137 mortes por dia, ou uma vítima a cada dez minutos.

O ambiente digital apresenta outro cenário. Pesquisa da UNESCO divulgada em dezembro de 2025 revelou que 75% das 354 jornalistas entrevistadas enfrentaram violência online. Entre elas, 42% associaram ataques virtuais a episódios de assédio, abuso ou agressão fora da internet.

A comunicação também pode silenciar mulheres

Em O Conto da Aia, o regime de Gilead utiliza a religião, a linguagem e o medo para justificar o controle sobre as mulheres. Fora da ficção, discursos que associam a autonomia feminina à desordem moral também participam de disputas sobre direitos, comportamento e poder.

O filósofo Michel Foucault demonstrou como as relações de poder ultrapassam a força física e alcançam normas, instituições e discursos. Já Pierre Bourdieu explicou, por meio do conceito de violência simbólica, como determinadas desigualdades podem ser apresentadas como naturais.

A comparação com Gilead não significa afirmar que o mundo caminha inevitavelmente para uma sociedade como a descrita por Atwood. Entretanto, os acontecimentos documentados em diferentes países mostram que direitos conquistados podem sofrer restrições e que o controle da informação pode acompanhar processos de exclusão.

A questão levantada pela obra permanece atual: uma sociedade precisa proibir mulheres de falar para começar a silenciá-las?

Talvez o maior alerta de O Conto da Aia não esteja nas roupas vermelhas de Gilead, mas na facilidade com que discursos podem transformar a perda de liberdade em algo aparentemente aceitável.

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