Geração da pediatra Samantha Oliveira estudou antes da popularização da internet; hoje, estudantes usam tecnologia até para acompanhar o sono e o rendimento nas provas
Há cerca de 30 anos, estudar Medicina exigia longas consultas a livros, visitas a bibliotecas, cadernos de anotações e acesso a publicações científicas impressas. Hoje, um estudante pode pesquisar conteúdos pelo celular, assistir a aulas gravadas, resolver simulados digitais e utilizar inteligência artificial para organizar os estudos. A pediatra Samantha Oliveira pertence à geração que cursou Medicina antes da popularização dessas ferramentas. Sua trajetória ajuda a situar uma transformação que ultrapassa as salas de aula: em 2026, até o sono dos futuros médicos passou a integrar projetos de acompanhamento acadêmico.
A mudança não aconteceu apenas na velocidade de acesso à informação. A formação médica também passou a conviver com novas ferramentas de avaliação, organização do tempo e acompanhamento individual. Ao mesmo tempo, permaneceram as exigências de conhecimento científico, atividades práticas e preparação para os processos seletivos de residência médica.
Como era estudar Medicina há 30 anos?
Na década de 1990, estudantes de Medicina dependiam principalmente de aulas presenciais, livros de referência, materiais impressos e bibliotecas universitárias. O computador pessoal ainda não estava presente em todas as residências, e a internet não oferecia a quantidade de conteúdos científicos e educacionais disponível atualmente.
A geração da pediatra Samantha Oliveira vivenciou esse período da formação médica. Embora a profissional tenha estudado Medicina há aproximadamente três décadas, os detalhes de sua rotina pessoal ainda não foram documentados nesta reportagem. Sua experiência permite contextualizar uma época em que o acesso à informação exigia recursos e procedimentos diferentes dos atuais.
Hoje, além dos livros, estudantes utilizam bancos de questões, plataformas de videoaulas, aplicativos de revisão e sistemas capazes de acompanhar seu progresso ao longo de meses.
Essa transformação faz parte de um movimento mais amplo de digitalização da vida cotidiana. O Panorama Goiás já mostrou como a inteligência artificial passou a ocupar novos espaços relacionados à saúde mental e ao comportamento, inclusive como ferramenta utilizada por pessoas que buscam orientações e informações sobre questões emocionais.
A ciência começou a medir os efeitos das noites mal dormidas
A relação entre sono e aprendizagem passou a receber atenção de pesquisadores, especialmente em cursos com grande volume de conteúdo e exigência cognitiva.
Uma revisão científica publicada em 2020 na revista Sleep Medicine Reviews reuniu 41 estudos sobre o sono de estudantes de Medicina. Entre os 14.170 universitários avaliados quanto à qualidade do descanso, 39,8% apresentavam problemas. Em outro conjunto de participantes, 35,9% relataram sonolência excessiva durante o dia.
Os pesquisadores encontraram associação entre problemas de sono e rendimento acadêmico. Isso não significa, entretanto, que dormir mais seja suficiente para garantir notas melhores. A aprendizagem depende de fatores como formação anterior, condições de estudo, saúde e metodologia de ensino.
Uma revisão internacional publicada em 2023 ampliou o debate ao reunir 109 estudos, com 59.427 participantes. A pesquisa estimou que 55,64% dos estudantes de Medicina analisados apresentavam má qualidade do sono, com duração média de descanso próxima de 6,5 horas por noite.
As duas pesquisas utilizaram amostras e metodologias diferentes. Por isso, não é possível comparar diretamente os percentuais para afirmar que a qualidade do sono dos estudantes piorou entre 2020 e 2023.
Empresa de Goiânia vai monitorar até a recuperação dos estudantes

A preocupação com descanso e desempenho acadêmico chegou à preparação para residência médica em Goiás.
O IPM Educação, empresa sediada em Goiânia, firmou parceria com a fabricante de dispositivos inteligentes Polar para incorporar dados fisiológicos ao acompanhamento dos participantes da Mentoria IPM 2027.
O projeto utilizará a pulseira Polar Loop, dispositivo sem tela que acompanha indicadores de frequência cardíaca, atividade física, sono e recuperação.
As informações poderão ser integradas ao IPM Track, plataforma que cruza os registros fisiológicos com resultados de simulados e questões resolvidas pelos estudantes.
“Para escolher a melhor trilha de aprendizado para cada aluno, precisamos ter clareza sobre como ele está dormindo, se recuperando e lidando com a pressão”, afirma Pedro Miranda, fundador e CEO do IPM Educação.
As pulseiras começarão a ser enviadas em novembro de 2026, e a integração com o sistema está prevista para janeiro de 2027. Segundo a instituição, o compartilhamento das informações será opcional e dependerá da autorização de cada participante.
Ainda não existem resultados independentes que comprovem aumento nas taxas de aprovação em residência médica com a utilização dessa tecnologia. O dispositivo também não substitui avaliação médica.
Por que os futuros médicos enfrentam tanta pressão?
A expansão da formação médica no Brasil acrescenta outra dimensão à discussão.
Segundo a Demografia Médica no Brasil 2025, o país formou 32.611 médicos em 2023, enquanto 16.189 ingressaram em programas de residência de acesso direto em 2024.
A comparação representa aproximadamente uma vaga ocupada para cada dois profissionais formados no ano anterior. O número não equivale a uma taxa de aprovação, pois médicos formados em outras turmas também participam das seleções.
O levantamento também identificou concentração regional das oportunidades. O Sudeste reunia 54,3% dos médicos residentes em 2024, enquanto o Centro-Oeste concentrava 7,7%.
Esse cenário ajuda a compreender a procura por métodos de preparação que permitam identificar dificuldades acadêmicas e organizar melhor a rotina.
O que permanece igual depois de três décadas?
A comparação entre a geração de Samantha Oliveira e os estudantes atuais revela uma transformação nas ferramentas disponíveis, mas não elimina as exigências da formação médica.
Os livros impressos passaram a dividir espaço com plataformas digitais. As anotações feitas à mão convivem com aplicativos. E o descanso, anteriormente pouco acompanhado por recursos tecnológicos individuais, agora pode ser estimado por dispositivos utilizados durante o dia e a noite.
A ciência reconhece a participação do sono na consolidação da memória e em processos relacionados à atenção e à aprendizagem. Ao mesmo tempo, os pesquisadores ressaltam que tecnologias de monitoramento precisam demonstrar resultados concretos antes de serem consideradas soluções para o desempenho acadêmico.
A mudança mais significativa talvez esteja na maneira como instituições e estudantes compreendem a preparação profissional. A quantidade de horas dedicadas ao estudo continua importante, mas passa a dividir espaço com discussões sobre recuperação física, saúde e qualidade da aprendizagem.
Três décadas depois da formação da geração de Samantha Oliveira, a tecnologia ampliou as possibilidades de acompanhamento acadêmico. O desafio permanece o mesmo: formar profissionais preparados para cuidar da saúde de outras pessoas sem ignorar as próprias necessidades de descanso e bem-estar.








