Relatos do influenciador Felca sobre oito anos de violência e exclusão na escola reacendem o debate sobre os impactos do bullying. Neuropsicóloga explica os sinais da ansiedade social, os sintomas e a importância do tratamento integrado.
Os casos registrados de bullying e cyberbullying contra crianças e adolescentes no Brasil cresceram 67,3% em 2025, na comparação com o ano anterior. Os dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), apontam 5.226 ocorrências policiais envolvendo vítimas de 0 a 17 anos, contra 3.161 registros em 2024. O aumento foi o maior entre os indicadores de violência contra crianças e adolescentes analisados pela publicação.
Os números, no entanto, representam apenas uma parte do problema. Os boletins de ocorrência tendem a registrar situações mais graves ou persistentes, que ultrapassam a capacidade de resposta das escolas. A dimensão da violência é ainda maior quando se considera a experiência dos próprios estudantes: a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024), divulgada em março pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra que quatro em cada dez adolescentes de 13 a 17 anos afirmam já ter sofrido bullying no ambiente escolar.
Além das agressões físicas e verbais, a violência pode deixar consequências profundas na saúde mental das vítimas, afetando a autoestima, o desempenho escolar e a capacidade de estabelecer relações sociais. Em alguns casos, os impactos podem contribuir para o desenvolvimento de transtornos como a ansiedade social, também conhecida como fobia social.
Os impactos do bullying na saúde mental
A neuropsicóloga Aparecida Tavares, que atende no centro clínico do Órion Complex, em Goiânia, explica que o bullying envolve uma relação desigual de poder entre o agressor e a vítima. Por ser uma forma de violência que pode se manifestar de maneira psicológica, verbal, física e até de gênero, a prática compromete diferentes aspectos da vida de quem sofre as agressões.
Segundo a especialista, entre as consequências estão o isolamento social, o afastamento de situações que envolvam outras pessoas, a queda no desempenho das atividades escolares e acadêmicas, a baixa autoestima e sentimentos de insegurança, rejeição e desvalorização pessoal.
Essas reações podem fazer com que a vítima passe a evitar ambientes e situações associados às agressões. Na escola, por exemplo, o medo de reencontrar os responsáveis pela violência pode transformar a rotina em uma fonte constante de ansiedade e sofrimento.
Relato de Felca reacende o debate sobre a fobia social
A discussão ganhou destaque após a divulgação de um vídeo do youtuber e influenciador Felipe Bressanim Pereira, conhecido como Felca, na terça-feira (20), data do Dia Mundial de Combate ao Bullying.
No conteúdo, o influenciador relata ter sofrido bullying durante oito anos no ambiente escolar. Ele descreve episódios de exclusão e violência física que, segundo seu relato, contribuíram para o desenvolvimento de fobia social. Felca também conta que recorreu ao consumo de álcool como forma de lidar com a ansiedade em situações de interação social.
A fobia social, atualmente denominada transtorno de ansiedade social, é caracterizada pelo medo intenso de situações sociais ou de circunstâncias em que a pessoa possa ser observada, avaliada ou exposta a constrangimentos. Quando esse medo compromete a rotina e as relações pessoais, pode prejudicar a participação em atividades escolares, profissionais e sociais.
De acordo com Aparecida Tavares, o transtorno pode se manifestar por meio do isolamento e da tentativa de evitar interações sociais ou situações que possam provocar vergonha e humilhação, como aquelas vivenciadas por vítimas de bullying.
Entre os sintomas físicos e emocionais mencionados pela especialista estão o medo intenso, a taquicardia, os tremores, o rubor facial, as tonturas, a sudorese, os problemas gastrointestinais e o aumento da frequência cardiorrespiratória. A profissional também alerta para a possibilidade de desenvolvimento ou agravamento de quadros depressivos.
Como identificar os sinais em crianças e adolescentes
A identificação dos sinais é uma etapa importante para interromper o ciclo de violência e buscar ajuda. Segundo a neuropsicóloga, pais e professores podem perceber mudanças no comportamento de crianças e adolescentes que estejam sofrendo bullying.
Entre os sinais de alerta estão o isolamento, a tristeza e o aparecimento de sintomas físicos, como dores no estômago, náuseas, diarreia e dor de cabeça. Esses desconfortos podem surgir ou se intensificar quando a criança ou o adolescente sabe que precisará retornar ao ambiente em que sofre as agressões.
A observação dessas mudanças é especialmente importante porque, conforme a especialista, a ansiedade social é mais incidente na fase infantojuvenil. O reconhecimento precoce do problema pode ajudar a evitar que o sofrimento se prolongue e comprometa outras áreas da vida.
Aparecida Tavares também relata ter sido vítima de bullying durante a faculdade. Sua experiência reforça a importância de reconhecer que a violência não se restringe à infância ou à adolescência e pode ocorrer em diferentes ambientes e fases da vida.
Tratamento exige participação da família e da escola
O enfrentamento da fobia social associada ao bullying exige uma atuação conjunta. Segundo Aparecida Tavares, o tratamento deve envolver a escola, os pais e profissionais especializados, como psicopedagogos, psicólogos e psiquiatras.
A participação da família e da comunidade escolar é importante tanto para identificar as situações de violência quanto para oferecer suporte à vítima. O acompanhamento profissional, por sua vez, contribui para avaliar os sintomas e orientar o tratamento de acordo com as necessidades de cada pessoa.
A especialista ressalta ainda que adultos também podem ser vítimas de bullying e nem sempre reconhecem que estão passando por esse tipo de violência. Por isso, compreender as características do problema é fundamental para identificar as agressões e intervir.
Consequências podem acompanhar a vítima até a vida adulta
Quando não são reconhecidos e enfrentados, os impactos do bullying podem se estender por muitos anos. Crianças e adolescentes que vivenciam situações persistentes de violência podem chegar à vida adulta com traumas, dificuldades para se sentirem valorizados e problemas para estabelecer relações sociais.
Aparecida Tavares alerta que essas experiências podem contribuir para o surgimento ou agravamento de transtornos mentais, incluindo ansiedade social, transtornos de humor e de adaptação. Em situações de sofrimento psíquico intenso, também podem surgir pensamentos disfuncionais relacionados à autolesão e ao suicídio.
A especialista destaca ainda que a violência pode provocar reações que coloquem em risco tanto a própria vítima quanto outras pessoas, inclusive por meio da busca por vingança no ambiente escolar.
Diante desse cenário, o combate ao bullying exige atenção contínua aos sinais de sofrimento, intervenção diante das agressões e acesso ao acompanhamento adequado. Mais do que um conflito entre estudantes, o bullying pode representar uma experiência de violência com consequências significativas para a saúde mental e para o desenvolvimento social de quem é atingido.








