A nova direita italiana começa a defender novamente os ítalo-descendentes

Por Welliton Girotto – CEO da Master Cidadania

Durante meses, consolidou-se no Brasil a ideia de que a direita italiana havia fechado definitivamente as portas para os descendentes espalhados pelo mundo. O Decreto Tajani — convertido posteriormente na Lei 74/2025 — passou a simbolizar justamente isso: uma Itália mais restritiva, mais burocrática e menos aberta ao reconhecimento da própria diáspora.

Mas o debate político italiano começou a revelar algo mais complexo.

Nas últimas semanas, movimentos ligados à nova direita identitária italiana passaram a defender publicamente a revogação da Lei 74/2025 e a retomada de um modelo amplo de reconhecimento da cidadania italiana por descendência, sem limites geracionais rígidos. A discussão, que antes parecia restrita a tribunais, consulados e escritórios especializados, voltou ao centro do debate político nacional.

O caso mais emblemático surgiu com a proposta apresentada pelo movimento Remigrazione e Riconquista, registrada oficialmente no sistema italiano de iniciativas populares. O texto defende explicitamente a revogação da atual legislação restritiva e o restabelecimento do iure sanguinis para ítalo-descendentes no exterior.

Mais importante do que o movimento em si é o que ele revela.

Pela primeira vez após o endurecimento promovido pelo governo Meloni, setores da própria direita italiana começaram a afirmar que os descendentes italianos não deveriam ser tratados como um problema administrativo, mas como parte estratégica da própria continuidade histórica da nação italiana.

Isso muda o eixo do debate.

Até pouco tempo atrás, a narrativa dominante era relativamente simples: de um lado, o governo tentando conter o crescimento explosivo dos pedidos de cidadania; de outro, milhões de descendentes espalhados pelo mundo buscando preservar um vínculo jurídico e cultural com a Itália.

Agora surge uma terceira leitura: a de que a diáspora italiana pode representar uma vantagem competitiva para o próprio país.

E essa visão não nasce apenas de romantismo histórico.

A Itália enfrenta uma das mais graves crises demográficas da Europa. A população envelhece rapidamente, regiões inteiras sofrem esvaziamento econômico e diversos setores convivem com escassez estrutural de mão de obra qualificada. Ao mesmo tempo, o país mantém fora de suas fronteiras dezenas de milhões de descendentes culturalmente próximos, muitos deles altamente qualificados, economicamente integrados e com forte capacidade de investimento.

A contradição se tornou inevitável.

Enquanto a Lei 74/2025 restringia o reconhecimento automático da cidadania, o próprio Estado italiano passou a criar mecanismos paralelos para facilitar a entrada de oriundi no mercado italiano por vias migratórias especiais. O chamado “canal oriundi”, inserido no debate recente sobre imigração e trabalho, deixou claro que a Itália continua enxergando valor estratégico nos descendentes — ainda que tente reorganizar juridicamente esse vínculo.

Na prática, o país parece dividido entre duas forças:

uma lógica tecnocrática, preocupada com volume processual e sustentabilidade administrativa; e outra identitária e demográfica, que enxerga os ítalo-descendentes como extensão natural da presença italiana no mundo.

Esse talvez seja o ponto mais relevante de todo o debate atual.

A pergunta estratégica não é apenas quantos descendentes têm direito à cidadania. É quanto capital humano, econômico e cultural a Itália perde ao tratar sua diáspora como problema administrativo — e não como ativo de futuro.

Ao longo do século XX, a Itália exportou milhões de pessoas. Exportou trabalho, cultura, sobrenomes, empresas e comunidades inteiras. Em países como Brasil, Argentina e Estados Unidos, esses descendentes ajudaram a construir cidades, indústrias e redes econômicas que ainda hoje preservam vínculos profundos com a identidade italiana.

Ignorar isso talvez seja um erro histórico maior do que o próprio debate jurídico sobre cidadania.

Porque, no fundo, a discussão atual já deixou de ser apenas documental.

Ela passou a envolver:

influência global;
demografia;
projeção cultural;
reposicionamento econômico;
e o tamanho que a Itália deseja ocupar no século XXI.

A Itália está novamente diante de uma decisão histórica sobre o tamanho que deseja ter no mundo.

O descendente italiano no exterior não é apenas memória familiar. É capital humano que outros países disputarão.

Como observou o The Economist, a Itália frequentemente age abaixo do próprio tamanho histórico — hesitando entre a ambição de uma potência global e os reflexos de uma pequena província cercada de medo.

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