Preparação para o Enem: especialista fala sobre risco do “Attention Span”

Numa época em que o tempo e a atenção das pessoas são ativos cada vez mais disputados pelas plataformas digitais, ter uma rotina de autocuidados com a saúde mental faz a diferença em provas de longa duração, como as do Exame Nacional

As inscrições para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2026 se encerraram e, de acordo com o ministro da Educação, Leonardo Barchini, a expectativa é que sejam mais de 4,5 milhões. Estudantes de todo o País que querem ingressar no Ensino Superior, especialmente os do esperado “terceirão”, devem manter no radar não somente os conteúdos para os dois dias de prova, mas também outro aspecto que tem impactado cada vez mais no desempenho do exame: a saúde mental.

Você que irá prestar o Enem ou convive de perto com alguém que irá realizar o exame nacional já ouviu falar no termo Attention Span? Em tradução livre do inglês, “limiar de atenção” designa a quantidade de tempo que uma pessoa consegue manter o foco numa única tarefa ou pensamento, antes de se distrair. É a base do funcionamento mental que permite o aprendizado, a consolidação da memória e a tomada de decisões, conforme explica a psicóloga e neuropsicóloga Aparecida Tavares, especialista em saúde mental que atende no Órion Complex, em Goiânia.

A exposição às telas pode ser considerada um dos maiores pontos de interferência no Attention Span dos adolescentes. Um artigo publicado pelo Einstein Hospital Israelita aponta que jovens com alto tempo de tela estão mais propícios a prejuízos na capacidade de aprendizagem. 

Segundo a instituição, o conteúdo das redes sociais de rolagem infinita e determinados aplicativos costumam ser marcados por estímulos rápidos e hipersensoriais. Esses elementos ativam os circuitos de recompensa do cérebro, de modo que a experiência se torna viciante e reduz a capacidade de concentração em atividades mais lentas e de maior complexidade, tal como a leitura ou estudo para uma importante prova.

Atenção disputada

Numa época em que o tempo e a atenção das pessoas têm sido ativos cada vez mais valiosos e disputados, quase que selvagemente, pelas plataformas digitais, dominar essa capacidade de atenção pode ser o diferencial entre um bom desempenho numa prova e uma crise de ansiedade. A psicóloga Aparecida Tavares alerta para o fato de que vivemos hoje um ambiente muito propício à desatenção, especialmente com o excessivo acesso a informações e exposição de telas, que levam o nosso cérebro a uma frequente dispersão.

“Um exemplo típico no nosso dia a dia é o excesso de notificações no celular. Esse ambiente digital das redes sociais nos submete a inúmeras multitarefas ao longo do dia. Isso ocasiona em muitas pessoas a síndrome do pensamento acelerado, que é uma das consequências deste nosso estilo de vida, em que temos menos tempo para o descanso e para a concentração adequada”, afirma a especialista do Órion Complex. 

Para reforçar como a exposição excessiva ao ambiente digital pode ser altamente nociva aos jovens, em especial àqueles que estão num contexto de preparação para o Enem, a neuropsicóloga cita um estudo na área da Psicologia Educacional realizado em 2024, que aponta que estudantes expostos a multitarefas digitais podem apresentar queda significativa na atenção sustentada, com impacto significativo em provas longas como é o caso das do Exame Nacional do Ensino Médio. 

“Pesquisas em Neurociência cognitiva revelaram que a memória de trabalho é a capacidade de manter o foco por mais de 20 minutos, quem tem ou desenvolve essa qualidade, em geral, tem grandes chances de um bom desempenho em provas com uma alta carga horária, como são as do Enem”, explica Aparecida Tavares.

Ansiedade

Outro desencadeador de um mau desempenho no Enem ou em qualquer outra prova de avaliação de conhecimento é a ansiedade exacerbada. A especialista esclarece que algum nível desse sentimento é normal, especialmente num momento em que o jovem está pensando na escolha de um curso superior. Mas quando essa ansiedade afeta a capacidade de concentração desse jovem, é importante procurar ajuda. 

“Existem vários estudos internacionais que reforçam a ansiedade e a pressão familiar como geradores da Attention Span, elevando, portanto, a possibilidade de erros por distração e redução da eficiência na resolução de problemas, inclusive os mais complexos”, explica a especialista.

Dicas

Quando questionado sobre qual é o melhor remédio para estudantes que queiram melhorar seu foco e aumentar a eficácia de seus estudos, a psicóloga e neuropsicóloga Aparecida Tavares avisa que não há nesse processo uma solução única e mágica. Ela, inclusive, faz um alerta sobre o uso, por estudantes, de estimulantes, muitos amplamente divulgados nas redes sociais e comercializados de forma indiscriminada. 

“É muito importante salientar que nem todo indivíduo irá necessitar destes recursos medicamentosos, até porque boa parte da população sequer tem a necessidade real do uso dessas substâncias”, explica.

Para a especialista, a melhora do nosso foco e concentração está muito mais relacionada a mudanças de hábitos e estilo de vida, do que ao uso de qualquer tipo de estimulante. Ou seja, ações simples do nosso dia a dia que muitas vezes fazemos de forma automática, mas esquecemos o quão são essenciais para nossa saúde. Confira as 5 dicas da neuropsicóloga para melhorar o foco e a concentração:

1. Deitar cedo e no mesmo horário – sempre buscar deitar cedo e num mesmo horário, esse é um hábito que garante boas noites de sono, até porque quem  não dorme bem, tem sua capacidade de atenção e memória muito comprometida;

2. Fuja das telas – evite o excesso de telas ao ponto de não usá-las no ambiente de estudo. Também é importante fugir dessa exposição às telas à noite, para se ter um sono de qualidade; 

3. Atividade física e boa alimentação – manter uma prática rotineira de exercícios físicos e alimentação saudável, evitando o uso de alimentos com excesso de açúcares e ultraprocessados, são mudanças de hábito importantes para quem quer melhorar sua capacidade de memória e atenção;

4. Técnicas de estudo – também vale o uso de técnicas de estudo eficazes, como por exemplo, a Técnica Pomodoro em que o indivíduo pode estudar 25 minutos e descansar outros 5;

5. Lazer – não abrir mão dos momentos de lazer, especialmente aqueles em ambientes que nos relaxam, como em parques, cinemas ou em casa ao fazer algum hobby. Enfim, busque atividades que te proporcionem motivação. 

“Sempre perceber que a ansiedade está chegando a um nível preocupante, uma sugestão é buscar uma boa conversa com familiares a fim de minimizar as cobranças ou a própria auto cobrança, que muitas vezes é até  mais pesada. Por fim, caso não consiga fazer esse gerenciamento saudável do seu tempo, da ansiedade e dos conflitos internos e externos, procure intervenção especializada com um psicoterapeuta e/ou orientação escolar e parental”, afirma Aparecida Tavares.

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